Um espaço de atenção partilhada: cuidar e ser cuidado no SNS
Começou mais um mundial de futebol. Portugal, sendo o país dos 3 F (Futebol, Fátima e Fado), parou. Quem não parou sentiu que estava a perder qualquer coisa.
Foi num dia desses que um paciente decidiu acompanhar o jogo de futebol no telemóvel enquanto falava com o médico. Não desligou o ecrã, não pediu desculpa. Seria o jogo importante assim? O futebol da seleção não é um jogo qualquer, toda a gente sente que pertence ao mesmo lado, ao mesmo país. É especial. Mas o problema não é o futebol, é a atenção.
A atenção é um bem escasso. O telemóvel está sempre presente com uma notificação, um resultado, uma mensagem. Ao longo do tempo convencemo-nos (e enganamo-nos...) que fazemos várias coisas ao mesmo tempo – e muito certos de que isto é eficiência. Mas há momentos em que fazer duas coisas ao mesmo tempo significa não fazer nenhuma bem. A consulta médica é uma delas.
Quando uma pessoa entra no consultório do Médico de Família não é apenas um número. É uma pessoa com uma história, com sintomas, com dúvidas. O médico escuta o seu paciente para perceber o que se passa e o paciente precisa de estar presente para descrever o que sente, para perceber o que lhe explicam, para fazer as perguntas que vão rentabilizar o tempo. Quando o tempo é desperdiçado não é só o médico que perde – perdemos todos.
Ter esse tempo protegido com o seu Médico de Família é um privilégio. O relatório PaRIS de 2025 da OCDE1 identifica o tempo da consulta como uma das características específicas de práticas dos cuidados de saúde primários que tem impacto nos resultados clínicos. Quando os pacientes sentem que o profissional passa tempo suficiente, têm maior probabilidade de confiar no sistema. Portugal tem um desempenho excelente, com tempos de consulta acima da média da OCDE, usados para envolver o paciente em decisões, explicar de forma clara e dar espaço para expressar preocupações.
Uma consulta com atenção dividida é uma consulta a metade, associada a risco clínico inaceitável, que não podemos ignorar: pode levar a diagnósticos incompletos, erros de gestão de medicação e falhas no tratamento por falta de entendimento. Isto não é apenas um problema de falta de educação ou um reflexo inofensivo da era digital, mas sim a rutura total da aliança terapêutica e um desrespeito frontal por recursos que nos custam muito a todos.
O Serviço Nacional de Saúde é de todos nós. Quando um paciente chega a uma consulta tem direito a ser tratado com competência e respeito e tem o dever e a responsabilidade de participar. Sem todos, profissionais e pacientes, o sistema público de saúde não funciona. Estar presente numa consulta não é um favor que é feito ao médico, é um dever cívico e um investimento na nossa própria saúde. Considero ser uma forma de demonstrar respeito pelo tempo de quem cuida de nós e pelo tempo de quem precisa de ser cuidado.
O jogo acabou. A seleção seguiu em frente. A consulta daquele dia? Essa não se repete.
Bibliografia
1 - OECD (2025), Does Healthcare Deliver?: Results from the PatientReported Indicator Surveys (PaRIS), OECD Publishing, Paris, https://doi.org/10.1787/c8af05a5-en.