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Taipas e a travessia do Atlântico por Gago Coutinho e Sacadura Cabral(1922)

António José Oliveira
Opinião \ quinta-feira, janeiro 13, 2022
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No número 60, do domingo, de 18 de junho de 1922, o “Jornal das Taipas”, dedicava metade da primeira página a este singular feito, com o título “O Raid Lisboa-Rio de Janeiro”.

Em 1922, dois aviadores da marinha portuguesa Sacadura Cabral e Gago Coutinho realizaram a primeira travessia aérea do Atlântico Sul, ligando Lisboa ao Rio de Janeiro.

A travessia começou a 30 de março de 1922 em Lisboa e terminou a 17 de junho, quando o hidroavião amarrou nas águas da Baía de Guanabara, ao largo do Rio de Janeiro, no Brasil.

Ao longo de mais de 4500 milhas marítimas foram perdidos dois aparelhos por razões técnicas e climatéricas. Com esta viagem em várias etapas, concluiu-se com êxito não só a primeira travessia do Atlântico Sul na história da aviação, mas provou-se que era possível efetuar voos de grande precisão, utilizando um novo tipo de sextante inventado por Gago Coutinho. Este aparelho de navegação viria a ser utilizado nas décadas seguintes na indústria aeronáutica mundial. Os dois oficias da armada portuguesa foram aclamados entusiasticamente como heróis no Brasil, como em Portugal. Há 100 anos, este feito que comemorava o centenário da independência do Brasil, foi noticiado na imprensa nacional e brasileira com enorme destaque.

Era inevitável que este feito heroico e inédito tivesse repercussões na imprensa taipense. No número 60, do domingo, de 18 de junho de 1922, o “Jornal das Taipas”, dedicava metade da primeira página a este singular feito, com o título “O Raid Lisboa-Rio de Janeiro”. Na capa enaltecia-se este feito que engradecia o nosso país, afirmando-se:

Gago Coutinho e Sacadura Cabral são hoje a encarnação verdadeira da raça portuguesa, esse povo valente de heróis sem para que desdenharam da morte para com o seu nobilíssimo rasgo de patriotismo mostrar ao mundo inteiro de quanto é capaz hoje, como sempre, a alma de Portugal; revelaram ao mundo scientifico o seu extraordinário talento, os seus vastos conhecimentos; fizeram Portugal grande, tão grande como o tem sido em tantos e tão brilhantes feitos da nossa gloriosa história (…)”.

Este artigo inflamado de patriotismo finalizava com vivas aos dois heróis, à Pátria e à República.

Na página seguinte era noticiado que a Dona Custódia Crespo, na terça-feira anterior, mandara celebrar na igreja matriz de Caldas das Taipas, uma missa em ação de graças pela viagem dos heroicos aviadores.

A 26 de outubro do mesmo ano, os dois aviadores regressam a Portugal de navio, sendo declarado feriado nacional. Na primeira página da edição de 6 de novembro de 1922, do “Jornal das Taipas”, sob o título “Os dois heróis de Portugal”, pode ler-se:

Gago Coutinho e Sacadura Cabral são os modernos arautos do heroism da Raça. O seu feito filia-se directamente na epopeia prodigiosa dos descobrimentos em que Portugal, assombro do mundo, devassou os misterios do mar desconhecido. (…) A velha Grecia levantá-los-ia à altura divina de semi-deuses (…)”.

Em suma, em apoteose patriótica, o “Jornal das Taipas” faz manchete na primeira página com os aviadores por duas ocasiões, mostrando-nos que nas Caldas das Taipas, este singular feito, que este ano comemora o seu centenário, não passou despercebido nesta povoação termal.