30 julho 2026 \ Caldas das Taipas
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O escritor Sousa Costa e as Caldas das Taipas (Parte II)

Carlos Marques
Opinião \ quinta-feira, julho 30, 2026
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De Nome completo: Alberto Mário de Sousa Costa, nasceu em Vila Pouca de Aguiar no dia 10 de maio de 1879, tendo morrido na cidade do Porto a 11 de janeiro de 1961, com 81 anos de idade.

(este texto é a continuação do publicado na edição de junho de 2026 da versão papel do jornal Reflexo, pelo mesmo autor)

No ano de 1949 recebe o Prémio Alto-Douro.

Em 1951 recebe o prémio Ricardo Malheiros, concedido pela Academia das Ciências de Lisboa

1. Na sua profusa obra literária, quando estanciava nas Caldas das Taipas no ano de 1935, escreve um romance Miss Século XX, cujo enredo passa-se todo nesta terra que merece os maiores elogios, designadamente de Luciana Stegagno que refere ser um livro vivo e moderno. É uma obra com forte componente social e cultural, refletindo mudanças ao longo do século XX. Aborda temas como: modernidade versus tradição, o papel da mulher, e as transformações da sociedade portuguesa. No estilo mantém traços ligados à observação do quotidiano e da identidade local.

Luiz Forjaz Trigueiros; .. mas este livro é uma reabilitação. É a reabilitação de “Miss Século XX”, a rapariga de hoje, que vive a sua vida à luz clara do claro sol, que faz sport, que não receia a maledicência das senhoras vizinhas, que nada e guia -mas que apesar disso, pensa e estuda, medita e trabalha, sem nunca perder as sublimes faculdades de viver, de sentir de chorar.

No capítulo da visita à fábrica que descreve em sentido figurado de “Milhéu”, na realidade a do Ferreira da Cunha que marcava nas lâminas das facas “Rio Ave”, cujo edifício ainda existe na margem esquerda do rio, à rua da Azenha, na terra da minha avó materna em Santa Eufémia de Prazins, faz referência a todas as fases de fabrico, às ferramentas e aos materiais usadas, ao modo de vida do operário e do patrão.

O empresário fabricava em Santa Eufémia de Prazins e marcava “Rio Ave-TAIPAS”, de que guardo alguns exemplares na minha coleção de facas e no princípio deste mês expus no 5º Encontro Mundial das Capitais da Cutelaria, além de há 4 anos ter oferecido várias facas desta marca para o Museu Mundial da Cutelaria.

O livro descreve as visitas que Vasco Briteiros faz com sua filha Gina (a protagonista principal do livro, e que dá nome ao seu título, a Miss Século XX) aos vários lugares das Taipas, como de Seara, Alvite, Pedraído, Faísca, Rabelo, Montinho, Lameira, ao Rio Ave à Ribeira da Canhota, aos canais de rega e às noras d’agua.

2. No ano de 1959 escreve o livro “Camilo no drama da sua vida” outra obra onde muito enaltece a nossa terra, defende e explica as razões de Camilo ter estado na casa das Taipas, na casa do Tim-tim.

3. No seu livro de viagens, “Mapa falado de Portugal” volta a escrever sobre a nossa terra, dizendo, designadamente “estância balnear especializada na cura das doenças da pele, entre milhos apendoados e videiras de enforcado, modelo de éclogas e pastorais se a lembrarmos pelo pitoresco, espelho de milagre de Lázaro se a considerarmos pelos dons terapêuticos.”

 

Algumas frases do romance "Miss Século XX"

Escreve na Dedicatória a Artur Vieira:

“Conheço o Ave melhor que o Cávado, conheço-o das férias grandes menino e moço, nas quintas de S. Caetano e Campelos – às cavaleiras do Ave, dos estudos no colégio da Costa. das romagens estivais por gosto, não por desgosto, às Caldas de Santo António das Taipas, a formosíssima região de Gina, rapariga moderna, modelo americano, representa o seu papel, a sua comédia, o seu drama, contracenando com a Mentira hereditária… “Janeiro de 1936

 

No corpo do livro:

1. Recordo-me também do Rabelo. Desce-se à ponte, depois de cortar a estrada de Lanhoso, ali p’lo lugar do Montinho.”

“Conheci ainda a sua casa ao passar no Montinho. Apontei-a ao pai -intervém Gina, à porta da fábrica, erguendo a voz sobre o batuque de volantes, forja, martelos e rebolos.

Entram na oficina. Os operários suspendem o trabalho. Gina, de olhos doloridos, observando-lhes as faces macilentas, os fatos remendados, vê estes reduzidos a mendigos de feira.

Guilherme começara já a revelar-lhes os transes do aço nas sucessivas transformações do seu fadário, até atingir a dignidade da faca e do garfo -a técnica da cutelaria, desde o nascimento até ao acabamento da peça: -o aço em bruto, o aço na forja, o aço na moldagem, sob o flagelo do martelo e da bigorna, o aço embutido, o aço na derruçada, cantando para espantar os males, no canto expedindo áscuas de fogo. Magníficas estas facas! -louva Gina. -Facas inoxidáveis-elucida Guilherme, lisonjeado, mostrando os cabos de chifre, os cabos de osso e ébano primorosamente trabalhados.

2. O dr. Diogo declara que pode dizer à vontade Santo António das Taipas. Lera pouco antes o livro de Ramalho Ortigão “Banhos e Caldas e Águas Minerais”. E as Caldas das Taipas, são de Santo António segundo o preceito do mestre.”

“Seja Santo António das Taipas, ou Caldas das Taipas – resume o recém-chegado, na vibração álacre do menino de colégio em férias – o certo é que se encontra na sua terra. E que Maria Tereza crê nas águas da sua terra, nos banhos das suas piscinas como se elas fossem emanação do padroeiro Santo António, infalíveis no milagre de aliviarem os padecimentos do reumatismo e do eczema.

3. O Dr. Diogo celebra os mananciais das Taipas com ditirambos de poeta e certificados de entendido. Cita provas maravilhosas, em paralisias e reumatismos, em liquens pruriginosos, em pitriases versicolores, dermatoses das mais rebeldes ao tratamento.

4. Vai a casa do coveiro e pede-lhe a chave do cemitério. Dize-lhe que é para mim. E leva-ma lá acima, ao Pedraído. Detém-se no quinteiro deserto, o ouvido atento ao passo e falas de lavradores e cabaneiros a caminho das Vessadas, o Maio-Moço na força germinal das sementeiras.

 

Algumas frases do livro "Camilo no drama da sua vida"

  1. “No receio dos venerandos bichos da Joaninha, aquartelados nas furnas blindadas de lixo, e na previsão dos mandados da captura, remove-se para as Caldas das Taipas, “à espera que Francisco Martins lá lhe dê um leito em sua casa e um talher à sua mesa”.
  2. “Deve ser esta a moradia registada por Alberto Braga na aludida carta – e corroborada, segundo diz, por Eduardo d’Almeida, vimaranense maior de setenta, desde moço maior nas letras e no foro, que lhe afirmou “ser corrente ouvir, aos velhotes das Caldas, que Camilo estivera na casa do Tim-tim.”
  3. “O incansável Joyeuse deparasse-nos, em toda a sua evidência, no transe da fuga das Caldas das Taipas para a Casa do Ermo, na presença da carrejona descalça, de baú à cabeça, que marcha à testa do cavalico de alquilaria.”
  4. O turbilhão baldeio outra vez nas Taipas, outra vez hóspede de Martins Sarmento. Daí a nada afoga-se na quinta do amigo, em Briteiros sobe ao Bom Jesus, onde procura no tronco duma árvore, a “memória duma hora feliz” – abertura melódica da marcha de mil horas entrepitosas de angústias”. “Outra vez nas Taipas. Outra vez em Briteiros. Outra vez os mandados de captura. Outra vez na marcha do terror...”

A obra do escritor é publicada em português e em castelhano. parte dela encontra-se depositada no Grémio Literário Vila-realense

O autor escreveu 50 livros, dos quais possuo 35 diferentes títulos, que expus no Átrio do edifício das Termas para consulta e leitura dos interessados.

 

Torremolinos em 31 de maio de 2026

ndr: Conteúdo originalmente publicado na edição de julho de 2026 do jornal Reflexo.