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A morte de dois soldados das Taipas e Donim na Praça de Valença (1810-1811)

António José Oliveira
Opinião \ quinta-feira, outubro 07, 2021
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Segundo o pároco de Donim, é dito que lhe foi apresentado um testamento de Manuel Francisco, redigido poucos dias antes da sua morte.

A consultarmos os assentos de óbito das freguesias do termo de Guimarães, temos documentada a morte de dois soldados oriundos das freguesias de São Tomé de Caldelas e de São Salvador de Donim, durante as invasões napoleónicas (1807-1811).

No assento de óbito redigido pelo vigário Custódio José Fernandes Borges, é dito que no dia 20 de novembro de 1810, chegou à freguesia de São Tomé de Caldelas, a notícia da morte do soldado miliciano Francisco de Freitas, morador no lugar do Penedo, que na altura tinha assentado praça na Praça de Valença do Minho. Através da leitura do mesmo registo de óbito, sabemos que o portador desta notícia fora Custódio José Marques morador no lugar da Cabreira, da freguesia de São Clemente de Sande. Custódia da Silva, na qualidade de mulher do defunto, mandou fazer os bens de alma, como era usual nesta paróquia. Este assento de óbito não especifica qual a causa de morte deste soldado miliciano taipense, nem qual a sua relação com Custódio Marques, portador da notícia. Podemos, no entanto, especular, que possivelmente Custódio Marques seria camarada de armas do falecido.

O outro caso, que hoje apresentamos é a morte de Manuel José Francisco de Sande, lavrador, casado com Ana Maria Antunes, morador no lugar de Requeixo, da freguesia de São Salvador de Donim, soldado miliciano, no seu respetivo Regimento da Praça de Valença.  Este soldado faleceu a 2 de junho de 1811, em Valença, conforme constava de uma certidão remetida pelo Reverendo Pároco da freguesia de Santa Maria dos Anjos de Valença, ao seu congénere de Donim. Nessa certidão emitida em Valença pelo pároco Carlos Joaquim Barbosa, temos conhecimento de que Manuel Francisco era soldado da oitava Companhia do Regimento de Milícias de Braga, tendo falecido com todos os sacramentos a 2 de junho de 1811. O seu corpo foi envolto numa túnica de São Francisco e foi sepultado no interior da Igreja Matriz de Valença na sepultura número 9. No dia seguinte, foi realizado um ofício de corpo presente com sete Padres. Esta certidão é transcrita na integra no livro de óbitos da freguesia de São Salvador de Donim, pelo Abade Bento Gonçalves de Moura, pároco desta freguesia do concelho de Guimarães. Segundo o pároco de Donim, é dito que lhe foi apresentado um testamento de Manuel Francisco, redigido poucos dias antes da sua morte, no hospital de Valença. No que diz respeito a disposições pias, o testador determinava que o seu corpo fosse envolto no hábito de São Francisco, com ofício de dez padres e que se lhe mandassem dizer por sua alma 20 missas. No assento óbito redigido pelo pároco de Donim, é averbado que foram realizados nessa freguesia o 2 e 3º ofício. Este soldado faleceu poucas semanas, após a retirada das tropas francesas de território nacional.

Relativamente ao papel da fortaleza de Valença do Minho, durante as invasões francesas, sabemos que no dia 9 de abril de 1809, o exército francês liderado pelo marechal Soult cercou Valença. Recorde-se que, durante estes dias de ocupação durante a 2ª invasão, ficaram para a história como escaramuças, pressão militar, assaltos à Câmara Municipal e às igrejas, com o roubo de ouro, prata, relíquias e viveres e a defesa inteligente do Governador da Praça de Valença, Custódio César de Faria.