Um desabafo sobre orçamentos elásticos
Pois é meus amigos, no meu artigo deste mês partilho com vocês um desabafo, que me sinto na obrigação de fazer, tanto por mim, como por muita gente que, como eu, ainda acredita que o que fazemos pode efetivamente fazer a diferença, e que mudar o mundo apenas depende de nós.
A minha ligação à organização de eventos começou no século passado. Sim, é verdade. Corria o ano de 1998, no primeiro Rock in Taipas, um festival/concurso de música rock realizado no Parque das Taipas. Na altura era um miúdo de 15 anos que tinha uma banda. Esse foi o meu primeiro concerto num festival, mas também foi o dia em que ajudei a carregar grades, amplificadores e tudo o que fosse preciso para que o evento acontecesse.
Foi nesse dia que o meu mundo mudou. Nasceu em mim um fascínio e uma paixão que me acompanham até hoje.
Seguiram-se várias edições do Rock in Taipas, cerca de dez edições do Barco Rock Fest — um festival de rock em barco que recebeu bandas nacionais e internacionais —, as BRF Summer Sessions, um festival itinerante pelo concelho dedicado a promover as bandas locais que não tinham espaço no Barco Rock Fest, e, entretanto, surgiram os Banhos Velhos, onde ajudei a criar e transformar aquele espaço num verdadeiro palco de espetáculos, tendo estado ligado ao projeto durante quatro ou cinco temporadas.
Pelo caminho vieram também projetos ligados à música eletrónica, como o VIVE e o Green Park Fest, onde realizámos, no total, cinco edições. Mais recentemente nasceu o Rock no Rio Febras, que este ano caminha para a sua quinta edição.
No meio de todo este percurso existiu ainda o N101, espaço onde, durante quase 15 anos, recebi centenas de bandas emergentes, nacionais e internacionais.
Ao longo destes mais de 25 anos de eventos trabalhei com centenas de pessoas diferentes, na sua maioria jovens. Jovens que partilharam sonhos comigo. Em cerca de 40 ou 50 eventos que organizei ou onde estive diretamente envolvido, passaram pelas equipas de organização centenas de jovens vimaranenses. Muitos cresceram connosco. Alguns tornaram-se profissionais da área, outros seguiram caminhos diferentes, mas ficaram para sempre com esse "bichinho" da cultura, da música e dos eventos.
Faço estas contas apenas para mostrar uma realidade muito simples: se somar todos os apoios públicos que recebi, em todas as equipas e organizações por onde passei durante quase três décadas, não chego a metade do apoio que o Festival MIMO irá receber numa única edição.
Como é que isto é possível? Como pode um único evento concentrar mais apoio do que toda a história de dezenas de festivais construídos ao longo de quase 30 anos na nossa região?
E atenção: isto não é uma crítica ao Festival MIMO, nem sequer à atual gestão camarária. É uma crítica transversal a todas as gestões que passaram pela Câmara Municipal. Porque, se hoje existe dinheiro para investir, então ele sempre existiu. Pelos vistos, dinheiro nunca foi verdadeiramente o problema. O problema sempre foi a vontade política. Aquela vontade que, demasiadas vezes, parece existir apenas quando o retorno em votos o justifica.
Porque quando há vontade política, afinal, as coisas acontecem.
A verdade é que nunca fomos alvo dessa vontade. E de uma coisa tenho a certeza: não foi por falta de qualidade, de competência, de conhecimento ou de ambição. Disso não tenho qualquer dúvida.
Recordo-me perfeitamente de, há vários anos, apresentarmos à Câmara Municipal de Guimarães um projeto para o Barco Rock Fest. Nessa altura o festival já tinha alcançado uma dimensão internacional e, depois de sete ou oito edições, queríamos dar o passo seguinte.
Lutámos durante anos com uma equipa inteiramente voluntária. Conseguimos consolidar apoios privados, criámos um projeto sólido e sustentável, mas, no momento decisivo, faltava apenas aquele impulso institucional que nos permitiria levantar voo.
Foi então que me explicaram uma dura realidade: que os orçamentos camarários não eram elásticos.
Hoje percebo que, afinal, eles conseguem ser... quando existe interesse para isso.
Sei perfeitamente que os recursos públicos não são infinitos e que é impossível apoiar tudo. Mas imaginem, por exemplo, se, em vez de concentrar cerca de 600 mil euros num único evento — e volto a utilizar este exemplo apenas porque é público, não porque tenha alguma coisa contra o Festival MIMO, que frequentei em Amarante e cujo valor artístico e cultural reconheço plenamente —, se distribuíssem 100 mil euros pelo Rock no Rio Febras, pelo L'Agosto, pelo Mucho Flow e pelo Westway LAB.
O que poderia acontecer?
O que eu sei é que seria um verdadeiro reconhecimento do tecido cultural vimaranense. Daquele que está cá o ano inteiro, que trabalha continuamente para manter viva a cultura na nossa região e que luta para trazer sempre mais e melhor.
O que eu sei é que seria uma alavanca extraordinária para fazer crescer quatro projetos que poderiam dar um salto qualitativo enorme.
Mas essa não foi a opção.
E, mais uma vez, fiquei desiludido.
Talvez porque, no fundo, ainda acreditava que as coisas pudessem ser diferentes.
Fica, por isso, uma pergunta.
Como podemos continuar a motivar pessoas — sobretudo as novas gerações — a dedicarem milhares de horas às suas comunidades, muitas vezes de forma voluntária, quando acabam sempre por esbarrar numa realidade onde o trabalho é elogiado, mas raramente apoiado de forma proporcional?
Porque reconhecimento existe. O problema é que esse reconhecimento quase nunca se traduz na vontade política necessária para fazer os projetos crescer.
Sempre que vejo os apoios públicos atribuídos aos eventos independentes da nossa região, fico com a mesma sensação: "toma lá, para não dizeres que não ajudámos" ou "é melhor dar qualquer coisa, senão fica mal".
Esta realidade tem de mudar.
E essa reflexão deve ser feita por todos nós, mas sobretudo por quem tem o poder de decidir. Porque são esses que podem alterar este paradigma e começar, finalmente, a olhar para os projetos culturais independentes como um investimento no futuro da comunidade, e não como uma despesa inevitável. Fica o desabafo… Mas a luta continua!!
ndr: Conteúdo originalmente publicado na edição de julho de 2026 do jornal Reflexo.