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Teoria Polivagal

Lionel Ferreira
Opinião \ quarta-feira, março 18, 2026
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A grande inovação da teoria reside na compreensão de que o nervo vago não é uma estrutura única e homogénea, mas possui duas vias com funções distintas e respostas adaptativas diferentes.

Tem sido recorrente, da minha parte, a procura de soluções relacionadas com o bem-estar, acompanhada por uma preocupação constante em compreender a verdadeira origem dos problemas que surgem. Ao longo deste percurso, tenho constatado que é cada vez mais frequente encontrar alterações no padrão de movimento da população.

Observam-se regularmente alterações posturais como a anteriorização da cabeça em relação ao tronco, ombros projetados para a frente, costelas elevadas e com reduzida mobilidade, bem como diversas disfunções articulares. Entre muitas outras alterações, percebe-se que, na maioria das situações, a sua origem poderá estar associada ao padrão respiratório — mais concretamente, à qualidade da expiração.

Muitas vezes negligenciado, o diafragma desempenha um papel central na organização do movimento e da postura. Quando não funciona de forma eficiente, surgem compensações que afetam o alinhamento corporal e o movimento global. As causas desta disfunção são multifatoriais: desde a permanência prolongada na posição sentada até fatores emocionais que favorecem uma respiração predominantemente torácica e superficial.

Em contextos de stress ou ansiedade — aquilo a que chamamos resposta de “luta ou fuga” — ocorrem alterações fisiológicas desencadeadas pela ativação do sistema nervoso simpático. O organismo prepara-se automaticamente para agir: as pupilas dilatam-se, a frequência cardíaca aumenta, os brônquios expandem-se, há maior libertação de glicose na corrente sanguínea e a digestão é temporariamente inibida. As glândulas suprarrenais libertam adrenalina e noradrenalina, potenciando um estado de alerta e prontidão.

O problema surge quando o corpo perde a capacidade de regressar ao estado de segurança e recuperação. Ou seja, quando não ocorre uma transição eficaz da resposta de luta ou fuga para um estado de relaxamento e digestão, mediado pelo sistema nervoso parassimpático.

Motivado por esta reflexão, procurei bibliografia sobre o tema e encontrei uma obra particularmente relevante: O Poder Curativo do Nervo Vago, de Stanley Rosenberg. Neste livro, o autor explora a teoria desenvolvida por Stephen Porges, professor de psiquiatria e criador da Teoria Polivagal, que aprofunda a compreensão do papel do nervo vago na regulação emocional, fisiológica e comportamental.

Antes da Teoria Polivagal, predominava a ideia de que o sistema nervoso autónomo oscilava apenas entre dois estados: stress (simpático) e relaxamento (parassimpático). Porges propõe um modelo mais complexo, sugerindo que talvez estivéssemos a utilizar um “mapa incompleto” para compreender a gestão do stress.

Segundo esta teoria, o envolvimento social depende do funcionamento coordenado de vários nervos cranianos — nomeadamente os nervos V, VII, IX, X e XI — todos com origem no tronco cerebral. A sua atividade integrada sustenta expressões faciais, vocalização, deglutição, ritmo cardíaco e outras funções que tornam possível a interação social segura.

Para além do ramo ventral do nervo vago, associado ao estado de conexão e segurança, o sistema nervoso autónomo inclui ainda a ativação simpática (luta ou fuga) e o ramo dorsal do nervo vago, relacionado com estados de distanciamento, colapso ou imobilização. Assim, a grande inovação da teoria reside na compreensão de que o nervo vago não é uma estrutura única e homogénea, mas possui duas vias com funções distintas e respostas adaptativas diferentes.

O livro apresenta ainda, na sua parte final, exercícios práticos que podem ajudar a restaurar o estado de envolvimento social e a melhorar a autorregulação do sistema nervoso.

 

Boa leitura e bons treinos!

ndr: texto publicado originalmente na edição de março do jornal Reflexo