Taipas: cultura, barulho, teimosia, rojões e tangerinas (Parte II)
Rock e rojões: quando a cultura também se come
Em Caldas das Taipas, a cultura não acaba no palco. Continua à mesa. O Rock e Rojões é talvez a síntese perfeita da filosofia local: música sem pretensões elitistas, comida tradicional, convívio e humor. Aqui não se separa alta cultura de cultura popular, porque essa divisão nunca fez muito sentido na vila.
Rock e Rojões é a resistência cultural com grelos e rojões, é comunidade em estado puro e é mais uma prova de que a identidade taipense se constrói tanto com riffs, como com os garfos da sua fantástica cutelaria.
Palco 21: formar sem formatar
A Escola de Música do Palco 21 é outro pilar fundamental desta dinâmica. Mais do que ensinar técnica, ensina atitude. Forma músicos, mas também pessoas conscientes do papel da música na comunidade. Muitos dos jovens que hoje tocam, organizam concertos ou criam projetos culturais, passaram por ali.
O Palco 21 garante que a chama não se apaga, que há continuidade geracional e que a vila continua a produzir criadores, não apenas consumidores.
Banhos Velhos: institucionalizar sem domesticar
Os Banhos Velhos representam a maturidade cultural de Caldas das Taipas. Um espaço que conseguiu algo raro: tornar‑se institucional sem ser na cidade. Concertos, exposições, residências artísticas e encontros convivem num edifício histórico que soube reinventar‑se como polo cultural de referência no concelho e a nível nacional, com um público residente que já há muito ultrapassou as fronteiras do concelho. Um caso raro de sucesso cultural descentralizado.
É a prova de que a energia alternativa pode – e deve – ocupar espaços centrais, que deve reinventa-los, mas também que não deve esquecer os espaços locais menos prováveis. Tenho a certeza que os romanos ficariam contentes em ver que este espaço termal continua a ser usado uns séculos depois como um centro de cultura, e que a sua memória não foi esquecida.
A rede de espaços: a cultura espalhada pela vila
Uma das maiores forças de Caldas das Taipas é a sua rede informal de espaços com programação cultural. O Alameda Park, o Bar do Ténis, o Bar 21, o Bar O´Cunha, a antiga Praça renovada com o Mercado 1911 e a Praça da Poncha formam um circuito vivo onde a cultura acontece regularmente.
Estes espaços funcionam como extensões da sala de estar da vila. Há concertos, DJ sets, conversas, encontros improváveis e ideias que nascem entre copos. É aqui que a cultura deixa de ser exceção e passa a ser hábito.
Tangerineiro: O maior motor da promoção do novo espaço público Taipense
O Tangerineiro é mais um exemplo da criatividade taipense aplicada à celebração comunitária. Um evento que cruza música, tangerinas, humor e identidade. E este ano foram milhares de pessoas que se juntaram no novo espaço em frente ao Bar O’Cunha (espaço que organiza o evento, e que prova que o tamanho físico não é limite quando o sonho e a criatividade são enormes), para em comunidade celebrarem a reunião anual de uma comunidade e os festejos natalícios no dia 24 de Dezembro, e no dia 31 celebrar a passagem de ano. Mais uma vez, Caldas das Taipas esteve à frente e celebrou a passagem de ano pelas dezoito horas, com direito a contagem decrescente, fogo de artifício champanhe e algumas tangerinas!!
O Rock in Barco: memória como arma
O reaparecimento de um Festival em Barco não é nostalgia, é estratégia cultural. Recuperar o passado para fortalecer o presente e projetar o futuro. É mostrar que a memória também é uma forma de luta. É dar mais palco a todas estas bandas emergentes, que cada vez mais necessitam dele. Prova que Barco é também uma freguesia rock e que o Barco Rock Fest deixou uma raiz forte ali junto ao rio Ave.
Taipas e Guimarães: influência sem pedir licença
Muito do que hoje acontece culturalmente em Guimarães tem raízes em Caldas das Taipas. Músicos, Dj’s, técnicos, programadores e público foram formados nesta vila que nunca esperou validação externa. A relação é clara: quando Taipas mexe, Guimarães sente.
Conclusão: geração N101, sempre
Tudo isto – festivais extintos e renascidos, bares cheios, bandas novas, escolas de música, eventos improváveis – é fruto da geração N101. Uma geração que não esperou apoios ideais nem contextos perfeitos. Fez com o que havia, onde estava.
Caldas das Taipas continua a ser epicentro cultural de uma região porque continua a acreditar que a cultura é uma prática coletiva, barulhenta, imperfeita e absolutamente essencial. E enquanto houver uma guitarra ligada, um palco improvisado, um prato de rojões e alguém disposto a organizar o próximo concerto, esta vila continuará a fazer aquilo que sempre fez melhor: não pedir licença.
ndr: texto publicado originalmente na edição de fevereiro do jornal Reflexo