Taipas: cultura, barulho, teimosia, rojões e tangerinas (Parte I)
Se durante anos disseram que a cultura acontecia nos centros históricos, nas capitais e nos cartazes financiados, Caldas das Taipas respondeu como sempre respondeu: com amplificadores ligados, mesas cheias, bandas novas a nascer e uma convicção inabalável de que ninguém precisa de pedir autorização para criar. A Vila de Caldas das Taipas não é apenas um território do concelho de Guimarães, é um estado de espírito. É um lugar onde a cultura não é ornamento, é necessidade básica, tão essencial como água termal, cerveja fresca ou rojões bem servidos.
Neste texto vou assumir de uma vez por todas, sem complexos, em tom semi militante, porque a história cultural das Taipas não se conta em voz baixa nem com distanciamento académico. Conta‑se como sempre foi vivida: de frente, com ironia, espírito crítico e uma alegria quase teimosa. E no centro desta história está uma geração que passo a intitular como a “geração N101” – que transformou uma estrada nacional numa metáfora cultural e uma vila numa fábrica permanente de música, encontros e acontecimentos improváveis.
Taipas não é periferia, é frente de combate cultural
Durante demasiado tempo, Caldas das Taipas foi vista como “fora de Guimarães”, quando na verdade sempre esteve à frente em matéria de dinâmica cultural. Aqui, a cultura nunca foi pensada como evento isolado, mas como prática quotidiana. Ensaiava‑se em garagens, tocava‑se em bares, organizavam‑se festivais com mais vontade do que o orçamento e aprendia‑se fazendo. Foi neste caldo que nasceu uma geração que percebeu cedo que esperar não era opção.
A famosa N101, estrada que liga Guimarães a Braga, tornou‑se o eixo quase simbólico dessa inquietação. Por ela, circulavam pessoas, discos, ideias, instrumentos e sonhos. Mas, ao contrário do que seria expectável, muitos não a usaram para fugir: usaram‑na para regressar e construir. Foi assim que Caldas das Taipas se tornou um centro cultural informal, autónomo e persistente.
Rock in Taipas: quando a vila decidiu fazer barulho
O Rock in Taipas não foi apenas um festival. Foi uma declaração de intenções. Foi a vila a dizer: “nós também fazemos isto, e fazemos à nossa maneira”. Com cartazes colados à mão, palcos montados com engenho entre as árvores do parque, e uma programação que apostava sem medo na música alternativa, o festival criou públicos, formou técnicos, lançou bandas e cimentou uma ética e forma cultural que ainda hoje se sente, muito à frente do seu tempo, completamente pioneira, não esquecendo que a primeira edição foi em 1998, quase há 28 anos atrás.
Quem passou pelo Rock in Taipas aprendeu duas coisas fundamentais: que a cultura não precisa de luxo para ser séria e que uma vila pode perfeitamente ser capital – pelo menos durante um fim de semana inesquecível.
Barco Rock Fest: As primeiras guitarras a sério à beira‑rio
Se havia dúvidas de que a Vila sabia integrar território e cultura, o Barco Rock Fest tratou de fazer as guitarras subir no rio Ave até chegar à freguesia de Barco. Rock, natureza, convívio e identidade local, fundiram‑se num festival que ficou gravado na memória coletiva. O Barco Rock Fest mostrou que o cenário também fala e que a cultura ganha força quando se enraíza no lugar, e lançou o movimento para o panorama nacional e até internacional. Em 2011, o Festival apresentou nos seus 4 dias de evento quase 30 bandas em dois palcos, em que cerca de 10 destas bandas já não eram nacionais.
O seu desaparecimento nunca apagou a marca deixada. Pelo contrário: tornou‑se referência, mito local e prova de que aquilo que é feito com verdade nunca morre completamente. Foi mais um dos marcos da toda a capacidade de fazer acontecer desta geração.
N101: mais do que um Bar, uma escola informal
O N101 foi o ponto de ebulição máxima desta geração. Mais do que um Bar, foi uma escola informal de cidadania cultural. Ali aprendeu‑se a produzir, a comunicar, a criar, a respeitar artistas, a resolver problemas e, sobretudo, a trabalhar em rede. O N101 ensinou que a cultura não é consumo passivo: é construção coletiva.
Mas talvez o maior legado do Bar N101 e de todo o ecossistema que o rodeava seja outro, muitas vezes dito em tom de piada, mas absolutamente sério: a quantidade absurda de bandas e djs que continuam a surgir em Caldas das Taipas e arredores. Bandas de garagem, bandas de palco, bandas que duram um verão e bandas que resistem décadas. Uma produção quase industrial de rock, punk, metal, indie e tudo o que caiba entre amigos e amplificadores.
Rock no Rio Febras: Novas tradições e solidariedade
O Rock no Rio Febras é a prova viva de que este território não vive de glórias passadas. Neste caso, seguimos os cursos de água do Rio Ave para montante, para subirmos num dos seus afluentes, o rio Febras até chegarmos a Briteiros e à sua Casa do Povo. Este festival, com nome que brinca com gigantes mas de identidade própria, assume sem vergonha o espírito local: música ao vivo, contacto com a natureza, gente da terra misturada com gente que vem de fora e um ambiente onde ninguém se sente estrangeiro sempre com os olhos postos em algo maior, a solidariedade, usando sempre a música rock e o sorriso como principais ferramentas.
É continuidade e renovação, é afirmação a nível nacional e internacional de todo o legado de uma geração rock. É a prova máxima do que a vontade e o sonho de muitos consegue alcançar, e que quando muitos querem o mesmo, tudo é possível. Em apenas 4 anos este evento conseguiu o seu lugar no leque dos maiores e mais importantes eventos a nível nacional de música rock. Um trabalho épico destas gentes de Briteiros, que com poucos meios, mas com uma tenacidade desmedida, conseguiram criar um gigante.
(continua...)
ndr: texto publicado originalmente na edição de janeiro do jornal Reflexo