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Rock no Rio Febras: um cartaz que privilegia a identidade em vez da escala

Pedro Conde
Opinião \ segunda-feira, junho 29, 2026
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Em vez de perseguir uma escala impossível ou competir diretamente com os grandes eventos nacionais, no Rock no Rio Febras apostamos na coerência, na diversidade e na autenticidade.

Num verão cada vez mais dominado por festivais que competem entre si através da dimensão dos orçamentos, da quantidade de palcos ou do impacto mediático dos cabeças de cartaz, no Rock no Rio Febras seguimos um caminho diferente. O alinhamento da edição de 2026 não procurou impressionar pela acumulação de nomes sonantes, mas pela coerência artística e pela capacidade de cruzar diferentes gerações e geografias do rock contemporâneo.

O primeiro aspecto que chamo atenção é precisamente essa diversidade. Houve uma enorme preocupação em reunir projetos com percursos distintos, mas que partilham uma relação genuína com a música ao vivo e com a cultura rock enquanto linguagem artística. O resultado foi este cartaz que foge à lógica dos algoritmos e das tendências passageiras, privilegiando bandas que continuam a construir a sua relevância sobretudo através dos discos e dos concertos.

Os australianos Wolfmother assumem naturalmente o papel de principal atração internacional. Embora o auge da sua projeção mediática tenha ocorrido durante a primeira década dos anos 2000, onde chegaram a ganhar um Grammy, a banda liderada por Andrew Stockdale continua a ocupar um lugar singular no panorama do rock mundial

Os seus lançamentos mais recentes não procuram reinventar a fórmula que os tornou conhecidos. Pelo contrário, reforçam uma identidade construída sobre riffs monumentais, solos extensos e uma evidente herança de bandas como Black Sabbath, Led Zeppelin ou Deep Purple. A sua presença no Febras confere ao festival uma dimensão internacional relevante sem cair na armadilha dos nomes escolhidos apenas pelo valor comercial.

A escolha dos norte-americanos The Last Internationale também foi cirúrgica. Trata-se de uma banda cuja notoriedade atingiu os níveis de exposição muito interessante a nível mundial, e cuja consistência artística tem sido amplamente reconhecida. Os seus discos mais recentes continuam a desenvolver uma sonoridade onde convivem blues, rock alternativo, soul e folk político, sustentados por letras marcadamente interventivas.

Numa época em que grande parte do rock perdeu a dimensão contestatária que o caracterizou durante décadas, The Last Internationale recuperam essa tradição sem parecer um exercício nostálgico.

No panorama nacional, procuramos ter no cartaz um equilíbrio interessante entre veterania e renovação.

Os Blind Zero chegam a esta edição numa fase particularmente relevante da sua longa carreira. Durante muitos anos foram frequentemente associados ao período dourado do rock alternativo português dos anos 90. Contudo, reduzir a banda a esse contexto histórico seria ignorar a capacidade de reinvenção demonstrada ao longo das últimas décadas.

Os trabalhos mais recentes evidenciam uma maturidade artística assinalável, explorando texturas sonoras mais sofisticadas e abordagens que vão muito além das fórmulas radiofónicas que marcaram alguns dos seus maiores sucessos. A sua inclusão no cartaz representa não apenas um gesto de reconhecimento histórico, mas também uma afirmação de atualidade.

Já os Clã continuam a ocupar um espaço quase único na música portuguesa. Poucas bandas conseguiram atravessar tantas transformações do mercado musical mantendo simultaneamente relevância crítica, reconhecimento popular e capacidade criativa.

Os seus discos mais recentes demonstram uma notável liberdade artística. Os Clã aparecem neste cartaz como representantes de uma tradição muito própria da música portuguesa: a capacidade de conciliar sofisticação artística com comunicação direta com o público.

Os DAPUNKSPORTIF representam uma aposta no espetáculo ao vivo. A dupla construiu ao longo dos anos uma identidade singular dentro do rock português, recusando enquadramentos fáceis e cultivando uma combinação rara de irreverência, energia e inteligência musical. Os seus lançamentos recentes mantêm essa postura desafiante, demonstrando que continuam mais interessados em explorar possibilidades do que em repetir fórmulas de sucesso.

Uma observação semelhante pode ser feita relativamente aos The Twist Connection. Entre os vários projetos nacionais dedicados à recuperação das raízes do rock'n'roll, poucos conseguiram desenvolver uma linguagem tão consistente. Os seus discos revelam um profundo conhecimento das tradições do garage rock e do rhythm and blues, mas evitam o academismo ou a simples recriação histórica.

Por sua vez, os Them Flying Monkeys reforçam a componente mais alternativa do alinhamento e aposta no talento emergente. A sua presença contribui para evitar que o festival se transforme numa mera celebração nostálgica do rock clássico, acrescentando diversidade estética e abertura a novas linguagens.

Outro elemento central deste cartaz é a valorização clara e explícita da cena local. Num período em que muitos festivais procuram legitimar-se exclusivamente através de nomes sonantes, no Rock no Rio Febras continuamos a assumir o seu papel como plataforma de visibilidade para os músicos de Guimarães dando-lhes o mesmo palco que os cabeças de cartaz internacionais.

A inclusão de This Penguin Can Fly, Correr Andar e Noise At Valve não surge como um simples gesto simbólico. Pelo contrário, evidencia uma compreensão importante do papel que um festival pode desempenhar na construção de um ecossistema cultural sustentável. Já para não falar que serve para mostrar ao mundo a qualidade extraordinária do que se faz na nossa terra. Bandas, todas com discos novos fresquinhos.

Num país onde a concentração mediática continua fortemente centralizada apenas em números de likes, apostas desta natureza assumem uma enorme importância. Não se trata apenas de abrir espaço para bandas emergentes; trata-se de reconhecer que a vitalidade da música portuguesa depende também da existência de circuitos alternativos capazes de gerar novas audiências e novas oportunidades.

No conjunto, o cartaz de 2026 revela um festival confortável com a sua identidade. Em vez de perseguir uma escala impossível ou competir diretamente com os grandes eventos nacionais, no Rock no Rio Febras apostamos na coerência, na diversidade e na autenticidade.

Num panorama cada vez mais saturado por eventos que muitas vezes parecem intercambiáveis, essa opção não é apenas legítima. É, provavelmente, a característica que torna o Rock no Rio Febras um dos projetos culturais mais interessantes do circuito de festivais alternativos em Portugal.

Mas isto como é claro, é a minha opinião, que como sempre, vale o que vale!

 

ndr: Este texto foi originalmente publicado na edição de junho de 2026 (suporte papel) do jornal Reflexo