Rock e Rojões e o renascimento (à moda do Minho) do culto do deus Baco
Há rituais que perduram nos tempos, porque respondem a necessidades profundas e básicas da nossa condição humana. A necessidade de celebrar, de pertencer, de reunir os nossos em volta de uma mesa, de conversar, cantar e dançar; a necessidade de suspender a rotina e criar momentos extraordinários que marcam a memória coletiva. Estas vontades são transversais e intemporais. E há tradições que nascem, crescem e, com o tempo, transcendem o simples ato de participar num evento — tornam-se símbolos identitários. Assim acontece com o Rock e Rojões, que já vai na sua 18.ª edição (existe larga discussão sobre este ponto, o que ainda acrescenta mais “salero” a este mito urbano underground, que seguidamente iremos esmiuçar).
Vamos então, nesta edição, falar do glorioso Rock e Rojões, um evento que consegue juntar numa só noite três dos pilares fundamentais da nossa identidade nacional: música (rock) alta, uma mesa farta com vinho, rojões e papas como manda a lei, e a firme convicção de que se a vida está complicada, a melhor solução é arranjar uma forma de festejar de forma a que só pensemos nisso na segunda-feira seguinte, nunca antes das 8:00.
Este ano, o encontro reuniu aproximadamente 240 foliões, que se auto intitulam “Rojões”, nome de guerra dado aos participantes do evento realizado, anualmente, no salão da Casa do Povo em Briteiros, Guimarães. Estes “Rojões”, vindos de todos os recantos do país e até de paragens estrangeiras. Vêm de Lisboa, Viseu, Algarve, como se este evento fosse uma espécie de peregrinação gastronómico-musical. Há quem atravesse fronteiras, França, Inglaterra e muitas outras paragens, para chegar a tempo à festa, porque faltar, não é opção de um Rojão que se prese (mesmo porque as inscrições estão limitadas ao espaço e, falhar uma edição, pode ditar perder o lugar na edição seguinte). Aliás, a melhor opção é mesmo chegar na sexta-feira anterior, onde algumas festividades já acontecem. Para além dos “Rojões” do costume, todos os anos há também aqueles amigos de amigos, que ninguém sabe bem de onde aparecem, mas que no final da noite acabam a cantar, abraçados em comunidade, como se fossem todos amigos desde a escola primária.
A verdade é que esta edição foi, segundo vozes populares, de vários Rojões de Ouro (título dado anualmente ao melhor folião do ano), e até por alguns Rojões Diamante (prémio atribuído à elite da elite, uma espécie de prémio carreira que todos os Rojões desejam alcançar), a melhor edição de sempre. Não se sabe se foi do entusiasmo, da meteorologia simpática, do facto de a carne estar particularmente apetitosa, da música ou do vinho; sabe-se apenas que todos foram para casa convencidos de que tinham assistido a algo histórico. E estavam certos, na minha modesta opinião de Rojão.
Agora, se formos ao fundo da questão — aquele fundo que só se alcança depois de três rojões e meia hora de rock — percebemos que há aqui ecos de civilizações antigas. Mais precisamente, das festas romanas dedicadas ao deus Baco, esse patrono das liberdades, da alegria e da ideia revolucionária de que o vinho é um excelente mediador social. Também a proximidade do evento com a citânia de Briteiros pode indicar que a localização deste evento não foi um acaso.
Já os romanos celebravam com entusiasmo: música, dança, partilha de comida e bebidas, e um entusiasmo tão descontrolado e exagerado, que chegou a assustar o Senado. Em Briteiros, felizmente, ninguém tem medo do Senado, no máximo um receiozito que a GNR venha para encerrar o evento. Ainda assim, há paralelos que não passam despercebidos. Nas bacanais romanas, havia vinho; no Rock e Rojões também. Lá havia música; aqui há rock. Lá havia comunhão entre gente de diferentes origens; aqui também, só que agora os romanos/Rojões em vez de chegarem de cavalo, chegam de carro, uber e alguns pela Ryanair. À saída, grande parte já sai efetivamente a voar, com a t-shirt anual vestida (outro pormenor é que todos os anos existe um tema, retratado de forma magistral pela artista oficial Maria João Oliveira, num logo estampado na t-shirt oficial do Rock e Rojões, prova de presença e guardado como um troféu pelos Rojões, tirando esta participação artística, a presença feminina no evento não é admitida, sendo um evento 100% masculino, por isso meninas, temos pena, mas é o que é), mas isso é outro dos pormenores que são similares às festas romanas.
Mas a ponte mais interessante entre estas duas tradições — a romana e a minhota — é uma coisa séria, que disfarça bem no meio da euforia: ambas tratam do mesmo instinto humano de celebrar a vida em conjunto. Comer juntos, beber juntos, existirmos juntos. Ninguém vai ao Rock e Rojões só por causa da música. Ninguém atravessa o país só por um prato de rojões, por melhores que sejam. O que move as pessoas é aquilo que movia os romanos: o ritual. O reencontro. A construção anual de uma memória coletiva que se vai transmitindo com orgulho e exagero, como manda a tradição.
Fala-se muito de como as tradições antigas devem ser preservadas, e devem, claro. Mas fala-se menos da importância de criar novas tradições, tão vivas, tão fortes e tão capazes de atravessar gerações como as que herdámos. Ora, o Rock e Rojões é exatamente isso: uma tradição em construção, que em menos de duas décadas se tornou referência, que mobiliza pessoas e vontades, que enche mesas e corações, e que demonstra que a criatividade cultural portuguesa não tem prazo de validade.
E quem olhar com atenção verá que há futuro aqui. Porque quando vemos jovens a querer participar pela primeira vez e no ano seguinte a quererem repetir, adultos a rir e a divertirem-se como adolescentes, e veteranos a lembrar edições passadas com precisão variável e a mostrar aos mais novos como se faz bem, percebemos que isto já não é apenas um evento — é património coletivo emocional. É uma cápsula anual onde se guarda aquilo que somos, e onde se cria aquilo que queremos deixar a quem vier depois.
Se a edição deste ano foi mesmo a melhor de sempre, isso quer dizer apenas uma coisa: a tradição está viva, saudável e com apetite para continuar.
Porque a verdade, a mais simples e mais antiga verdade, é esta: ninguém resiste a uma boa festa. Sobretudo quando vem acompanhada de rojões, rock, amigos e a certeza absoluta de que para o ano haverá mais e será, inevitavelmente, novamente “a melhor edição de sempre”.
ndr: texto publicado originalmente na edição de dezembro do jornal Reflexo