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Resistir com ironia, produzir com teimosia e esperar com alguma elegância

Pedro Conde
Opinião \ quinta-feira, março 19, 2026
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Claro que há uma razão nobre para tamanha cautela. É fundamental garantir que nenhum projeto aprovado tenha, em vida anterior, simpatizado com o executivo rival.

Pois é, meus amigos, há fenómenos naturais que podemos prever quase com rigor científico: as marés, os eclipses e o trânsito em dia de jogo do Vitória em Guimarães. A estes junta-se agora outro evento cíclico e inevitável: o Período Glaciar da Decisão Cultural, que se instala mal tomam posse novos executivos municipais, descendo sobre a programação artística como uma frente fria saída diretamente do boletim meteorológico da burocracia.

A cena repete-se com a pontualidade de um relógio suíço comprado em saldo institucional. Mal se contam os votos, inicia-se a época alta da “prudência”. A nova equipa precisa, compreensivelmente, de tempo para “se inteirar dos dossiers”. E inteira-se com afinco quase religioso. Técnicos mergulham em pastas como arqueólogos administrativos à procura de vestígios de decisões passadas; vereadores franzem a testa diante de folhas Excel com a solenidade de quem decifra manuscritos medievais à luz de velas orçamentais. A frase oficial ecoa nos corredores, dita com a gravidade de um juramento de posse: “Vai ter de ter paciência, ainda estamos a avaliar.”

E avaliam. Avaliam muito. Avaliam tanto que a avaliação se torna atividade cultural em si mesma — talvez a única consistentemente financiada. Criam-se grelhas de análise, subcomissões de ponderação, grupos de trabalho para estudar a viabilidade de futuras reuniões. Quando finalmente terminam de avaliar o que foi deixado pelo executivo anterior, já falta um ano para as próximas eleições — e é preciso começar a prometer outra vez, agora com nova tipografia e slogans reciclados. O ciclo é perfeito na sua geometria política: não se decide nada porque é cedo demais; depois não se decide nada porque é tarde demais. Entre o “ainda não” e o “já não”, a cultura aprende a arte da criogenia e descobre que sobreviver é, muitas vezes, a sua forma mais pura de resistência.

Claro que há uma razão nobre para tamanha cautela. É fundamental garantir que nenhum projeto aprovado tenha, em vida anterior, simpatizado com o executivo rival. Imagine-se o escândalo de apoiar uma atividade que o adversário também considerava meritória. Seria quase colaboração artística bipartidária, uma promiscuidade estética difícil de explicar em conferência de imprensa. Assim, por segurança democrática, suspende-se tudo até se verificar que cada concerto, exposição ou residência criativa está ideologicamente esterilizada. Nada de vestígios perigosos. Nada de ambiguidades programáticas. Nada que possa ser confundido com continuidade.

Entretanto, associações aguardam respostas como quem espera um comboio que ficou “temporariamente retido na estação”. Produtores afinam orçamentos com a perícia de equilibristas; artistas reformulam candidaturas na esperança de que uma vírgula diferente altere o destino do financiamento. A palavra “transição” ganha estatuto quase mitológico: é sempre transitório, mas nunca transita realmente para lado nenhum. Vive-se numa espécie de limbo administrativo onde o presente é provisório e o futuro está “em reavaliação”.

Infelizmente esta é uma realidade nacional, e é nesses momentos, muitos de nós olhamos para trás e pensamos que talvez o país não estivesse preparado para visionários como João Manuel Vieira, o único estadista que apresentou um plano infraestrutural verdadeiramente mobilizador: vinho canalizado. Será que estaríamos pior? Pelo menos teríamos artistas hidratados e bem dispostos. Já para não falar que podíamos estar na mesma a conduzir em estradas esburacadas, cheios de problemas, mas faríamos isso de Ferrari. Muitos estarão a perguntar: “Oh Conde, nas acreditas nisso?” Eu respondo,  acredito tanto como na maior parte das promessas eleitorais que oiço.

Mas pronto preferimos os métodos e as políticas tradicionais: a cultura como paciente em sala de espera, a administração como médico que diz “já o chamo”, e a decisão como consulta eternamente atrasada por “motivos imprevistos”. Multiplicam-se reuniões estratégicas para definir o calendário das reuniões onde se decidirá quando marcar a reunião decisiva. Redigem-se atas detalhadas que registam, com rigor histórico, a decisão de adiar a decisão. Franz Kafka chamaria a isto romance; eu chamo agenda municipal — embora reconheça que a ficção, por vezes, pareça mais plausível do que o regulamento interno.

E quando finalmente surge um apoio, ele vem acompanhado de fotografia e discurso sobre “novo dinamismo cultural”. Novo, sublinhe-se, porque o antigo continua em análise, provavelmente numa gaveta cuja chave está, também ela, a ser avaliada. O evento realiza-se, as luzes acendem-se, o público aplaude, e por breves instantes parece que a máquina engrenou. Mas logo regressa o inverno administrativo, discreto e persistente, lembrando que cada impulso precisa de despacho, e que sempre com o mote, “para o ano é que vai ser”.

Entretanto, artistas persistem nesse hábito inconveniente de criar, mesmo sem despacho favorável. Escrevem, ensaiam, montam exposições, organizam concertos, reinventam espaços. Fazem-no não porque o calendário municipal o permita, mas porque a criação não reconhece períodos. Talvez seja essa a verdadeira política cultural que nos resta: resistir com ironia, produzir com teimosia e esperar com alguma elegância.

P.S. - Wolfmother e Clã estão confirmados no Febras, por isso siga a comprar kits!!!

ndr: texto publicado originalmente na edição de março do jornal Reflexo