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Postura em Rutura

Lionel Ferreira
Opinião \ quarta-feira, dezembro 17, 2025
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A respiração desempenha um papel central: trabalhar o diafragma ajuda a desbloquear tensões profundas e a melhorar a mecânica geral do corpo.

A passagem da posição quadrupede para o bipedismo é um dos momentos mais significativos da evolução humana. Muito mais do que “erguer-se sobre duas pernas”, este processo transformou por completo o esqueleto, a musculatura e a forma como interagimos com o mundo.

Com a verticalização, a bacia tornou-se mais curta e larga, e os ossos ilíacos passaram a projetar-se lateralmente. Essa alteração permitiu que os músculos glúteos assumissem um papel essencial na estabilidade do tronco durante a marcha, evitando que o corpo caísse para o lado oposto ao da perna levantada. A coluna adquiriu as conhecidas curvas em “S” (duas lordoses e uma cifose) que funcionam como um sistema de amortecimento, distribuindo o peso e protegendo as articulações.

Ao deixar as mãos livres, o bipedismo abriu caminho para o transporte e manuseamento de objetos, para o uso de ferramentas e para uma maior eficiência energética na locomoção. A postura ereta também ampliou o campo visual, permitindo detetar alimento e predadores a longas distâncias revelando-se uma vantagem crucial nas savanas onde os primeiros hominídeos evoluíram.

Contudo, a evolução que nos permitiu caminhar erguidos também nos tornou vulneráveis às exigências do estilo de vida moderno. O ritmo acelerado, o stress, a ansiedade e longas horas em frente ao computador alteram padrões respiratórios e criam desequilíbrios musculares. Quando predomina uma respiração torácica, ativando músculos acessórios em vez do diafragma, surgem tensões que se traduzem em desalinhamentos. Some-se a isso a postura sentada prolongada, frequentemente inclinada sobre ecrãs, e obtém-se o cenário atual: dores de costas, cefaleias, refluxo e problemas digestivos tornaram-se queixas diárias da população ativa.

É neste contexto que ganha relevância a Reeducação Postural Global (RPG), método desenvolvido pelo fisioterapeuta francês Philippe Souchard. Ao contrário de abordagens centradas apenas no sintoma, a RPG considera o corpo como um sistema integrado, onde a dor é apenas a manifestação visível de um desequilíbrio mais profundo.

Souchard identificou a existência de “cadeias musculares”, grupos de músculos interligados que funcionam de forma contínua. Quando um músculo encurta, toda a cadeia é afetada, gerando compensações que, a longo prazo, se traduzem em assimetrias e disfunções. Os músculos estáticos, aqueles que mantêm o corpo contra a gravidade, têm tendência natural ao encurtamento e são os principais responsáveis pelas alterações posturais.

O método assenta em posturas de alongamento global, lentas e progressivas, que visam descomprimir articulações, libertar tensões e realinhar segmentos corporais. A respiração desempenha um papel central: trabalhar o diafragma ajuda a desbloquear tensões profundas e a melhorar a mecânica geral do corpo. O objetivo é contrariar aquilo que Souchard apelidou de “Lei da Mínima Ação”, segundo a qual o corpo, para poupar energia, recorre a estruturas rígidas em vez de ativar os músculos dinâmicos, estratégia que acaba por gerar dor crónica e deformidades.

A RPG funciona, assim, como uma espécie de “manual de instruções” para o corpo humano, ajudando-o a reencontrar o alinhamento ideal perdido ao longo da evolução e agravado pelos hábitos contemporâneos. O entendimento da nossa história evolutiva é, por isso, essencial não só para tratar, mas também para prevenir disfunções musculoesqueléticas.

Ao olhar para o passado, compreendemos melhor os desafios do presente e percebemos que cuidar da postura é, afinal, continuar a aperfeiçoar um dos mais importantes passos da nossa evolução.

 

Bons treinos!

ndr: texto publicado originalmente na edição de dezembro do jornal Reflexo