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O Torreense e a maravilha do futebol

Lionel Ferreira
Opinião \ terça-feira, junho 30, 2026
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Hoje, o Torreense representa muito mais do que uma simples surpresa desportiva. Representa a prova de que, no futebol, projetos sustentáveis, organização e identidade podem desafiar gigantes.

Neste artigo vamos falar sobre uma das maiores maravilhas que o futebol nos pode oferecer: o impossível tornar-se realidade.

De forma espetacular, sofrida e absolutamente imprevisível, o Torreense derrotou o Sporting Clube de Portugal por 2-1 na final da Taça de Portugal. Pela primeira vez na história da competição, um clube da segunda divisão conquistou o troféu.

Mais do que uma vitória, foi um momento histórico para o futebol português.

A conquista aconteceu com sofrimento, como quase todas as grandes histórias do desporto. No entanto, não podemos ignorar a enorme vontade de vencer demonstrada por um clube de uma pequena cidade frente a um gigante da capital. O futebol continua a provar que orçamento, dimensão ou estatuto não entram em campo sozinhos.

Costumo dizer que o jogo só termina quando o árbitro apita, e o Torreense levou essa ideia ao limite. Já perto do final, com o guarda-redes do Sporting na área adversária em busca do empate, a equipa de Torres Vedras esteve muito perto de marcar o terceiro golo num contra-ataque fulminante.

A cidade conhecida pelo Carnaval entrou agora na história por um motivo completamente diferente.

Acredito que a época 2025/26 ficará eternamente marcada na memória dos adeptos torreenses. Em poucos dias, o clube esteve perto de protagonizar uma das épocas mais absurdas e improváveis do futebol português recente.

O Torreense terminou a Liga Portugal 2 em igualdade pontual com o Académico de Viseu, segundo classificado, garantindo acesso ao play-off de subida. No duelo decisivo frente ao Casa Pia, a promoção acabou por cair para a equipa lisboeta. A subida à Primeira Liga teria sido a verdadeira cereja no topo do bolo.

Ainda assim, a conquista da Taça de Portugal mudou completamente o panorama do futebol nacional. O Torreense garantiu qualificação para as competições europeias e juntou-se a um grupo restrito de equipas oriunda da Liga 2 a alcançar a Europa League.

Esta vitória teve também impacto direto nas contas europeias de vários clubes da Primeira Liga. O Famalicão precisava de uma vitória do Sporting para garantir presença na Conference League, enquanto o Sporting de Braga poderia beneficiar de uma redistribuição das vagas europeias.

Mas talvez o mais fascinante nesta história seja perceber de onde veio este Torreense.

Há cerca de dez anos, o clube competia no Campeonato Nacional de Seniores, atual Campeonato de Portugal. Em 2015, o empresário chinês Qi Chen, ligado ao Oriental Dragon FC, adquiriu 70% da SAD do Torreense. O objetivo passava por garantir estabilidade financeira, internacionalizar o clube e desenvolver jogadores chineses em Portugal. No entanto, poucos anos depois começaram a surgir divergências entre o clube e a SAD. Existia um claro desalinhamento estratégico e cresciam as dúvidas relativamente ao controlo desportivo e à identidade do projeto.

Em 2019 aconteceu o verdadeiro ponto de viragem. O Torreense recomprou a SAD e voltou a assumir o controlo da estratégia desportiva, da gestão financeira e do planeamento a longo prazo. O objetivo era claro: reconstruir o clube de forma sustentável e levá-lo novamente ao futebol profissional.

Com o fim da dependência de investidores externos, iniciou-se uma reorganização profunda. O projeto passou a assentar num modelo mais regional, sustentável e profissionalizado. Gradualmente, o clube consolidou a sua estrutura, fortaleceu a SAD e iniciou uma subida consistente até alcançar a Liga Portugal 2.

Hoje, o Torreense representa muito mais do que uma simples surpresa desportiva. Representa a prova de que, no futebol, projetos sustentáveis, organização e identidade podem desafiar gigantes.

E talvez seja precisamente por isso que o futebol continua a ser o desporto mais apaixonante do mundo.

 

ndr: Este texto foi originalmente publicado na edição de junho de 2026 (suporte papel) do jornal Reflexo