03 junho 2026 \ Caldas das Taipas
tempo
18 ºC
pesquisa

O mito do impossível

Lionel Ferreira
Opinião \ quarta-feira, junho 03, 2026
© Direitos reservados
A barreira das duas horas caiu. E, com ela, abriu-se uma nova fronteira na compreensão dos limites humanos.

O novo recorde do mundo da maratona foi batido na Maratona de Londres 2026, num feito que ficará para sempre na história do desporto. O queniano Sabastian Sawe completou os 42,195 km em 1h59min30s, tornando-se o primeiro atleta a correr uma maratona oficial abaixo das duas horas.

Com esta marca, superou o anterior recorde mundial, pertencente a Kelvin Kiptum (2:00:35), melhorando-o em cerca de 65 segundos. Para reforçar o nível extraordinário da prova, também Eliud Kipchoge terminou abaixo das duas horas — um sinal claro de que a maratona entrou numa nova era.

Para compreender a dimensão deste feito, basta olhar para os números: Sabastian Sawe correu a uma média superior a 21 km/h durante toda a prova. Para a maioria das pessoas, esta velocidade só é sustentável durante algumas dezenas de metros. Manter este ritmo durante quase duas horas implica operar próximo do limite fisiológico. Ao nível científico, isto traduz-se numa capacidade excecional de captar, transportar e utilizar oxigénio (VO₂max), aliada a uma economia de corrida altamente eficiente — gastar o mínimo de energia possível a cada passada.

Na maratona, não basta ser rápido — é essencial saber distribuir o esforço. O chamado pacing (gestão do ritmo) é muitas vezes o fator decisivo. Sawe executou a prova com uma precisão quase perfeita, mantendo variações mínimas ao longo dos 42 quilómetros. Esta consistência evita picos de fadiga, atrasos metabólicos e quebras abruptas de rendimento, transformando a corrida numa autêntica demonstração de controlo.

Outro fator incontornável é a evolução das sapatilhas de competição que incorporam espumas com elevado retorno energético, placas de carbono que aumentam a eficiência mecânica e geometrias que favorecem a passada. Estima-se que estas inovações possam melhorar a economia de corrida em vários pontos percentuais — uma diferença decisiva ao mais alto nível.

O treino de um maratonista de elite caracteriza-se por volumes muito elevados, frequentemente entre 180 e 220 km por semana, combinados com sessões específicas de intensidade. Para além da corrida, há uma integração crescente de treino de força, pliometria e trabalho técnico. Este conjunto melhora a eficiência neuromuscular e reduz o custo energético da corrida.

Atletas da África Oriental, nomeadamente do Quénia e da Etiópia, continuam a dominar a maratona mundial. Para além de eventuais fatores genéticos — como uma morfologia leve e eficiente — estes atletas crescem inseridos num contexto onde a corrida faz parte do quotidiano. Iniciam a prática desde muito jovens, num ambiente cultural fortemente orientado para o rendimento, normalmente em altitude, o que potencia de forma natural o desenvolvimento das capacidades aeróbias. Este verdadeiro “ecossistema de performance” potencia o desenvolvimento de atletas de excelência.

Embora não sejam públicos os detalhes do plano nutricional de Sawe, é certo que terá sido altamente estruturado, com estratégias precisas de ingestão de hidratos de carbono e hidratação ao longo da prova. Nos dias de hoje, nada é deixado ao acaso.

A Maratona de Londres reuniu condições ideais com um percurso plano e rápido, poucas curvas e ausência de grandes obstáculos e uma temperatura e humidade favoráveis. Estes fatores reduzem o custo energético e permitem manter ritmos elevados de forma mais eficiente.

Sem retirar mérito a Sabastian Sawe — cujo feito é absolutamente extraordinário — importa reconhecer que este resultado é o produto de uma combinação rara: talento, trabalho, ciência, tecnologia e contexto.

A barreira das duas horas caiu. E, com ela, abriu-se uma nova fronteira na compreensão dos limites humanos.

Bons treinos!

 

ndr: conteúdo publicado originalmente na edição de maio de 2026 do jornal Reflexo.