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O grande desafio da formação

Lionel Ferreira
Opinião \ quinta-feira, maio 07, 2026
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Um dos principais fatores associados à perda de talento é a desvantagens maturacional. Atletas com desenvolvimento mais tardio são frequentemente excluídos precocemente.

A prática desportiva em crianças e jovens tem assumido uma importância crescente na sociedade. Com o aumento da participação em atividades extracurriculares, também a oferta desportiva se diversificou, proporcionando um leque mais alargado de modalidades. Neste contexto, a formação desportiva deve ser entendida como um processo estruturado que visa não apenas o rendimento, mas sobretudo o desenvolvimento integral do jovem.

Os principais objetivos da formação desportiva incluem a promoção da saúde, o desenvolvimento físico global, a melhoria das capacidades motoras, a redução do risco de lesão e a promoção de hábitos de prática ao longo da vida. Numa fase inicial, as atividades devem centrar-se no desenvolvimento de competências motoras fundamentais, como correr, saltar e lançar, privilegiando a diversidade de experiências e a aprendizagem através do jogo. Durante a adolescência, deve existir uma progressão gradual das cargas de treino, incluindo força, resistência e velocidade, assegurando simultaneamente a correta execução técnica e o desenvolvimento da coordenação.

De acordo com recomendações internacionais, nomeadamente de entidades como o American College of Sports Medicine e a World Health Organization, a prática desportiva em crianças deve ser maioritariamente de intensidade moderada, incluindo também períodos de intensidade vigorosa. No entanto, um dos problemas frequentemente identificados na prática é a ausência de individualização do treino, sobretudo pela não consideração da idade biológica. É comum observar-se a aplicação de metodologias semelhantes entre crianças, adolescentes e adultos, o que pode comprometer o desenvolvimento adequado.

Apesar dos benefícios amplamente reconhecidos da prática desportiva, o abandono precoce constitui um desafio da formação. A evidência científica demonstra que a participação desportiva diminui significativamente ao longo da adolescência. Entre as principais causas destacam-se a falta de prazer, a perceção de baixa competência, a pressão excessiva, o conflito com a escola e a ocorrência de lesões.

A literatura é consistente ao identificar a perda de prazer como o fator mais determinante para o abandono. Ambientes excessivamente competitivos, com elevada pressão e pouca variabilidade de treino, tendem a reduzir a motivação dos jovens.

Paralelamente ao abandono, verifica-se também um fenómeno relevante: a perda de talento ao longo da formação. Estudos demonstram que apenas uma pequena percentagem de jovens identificados como talentosos em idades precoces atinge níveis de elite. Este facto evidencia limitações nos modelos de identificação de talento, que tendem a valorizar excessivamente o desempenho imediato.

Um dos principais fatores associados à perda de talento é a desvantagens maturacional. Atletas com desenvolvimento mais tardio são frequentemente excluídos precocemente, apesar do seu potencial a longo prazo.

A organização do treino assume um papel central. Quando existe excesso de carga, falta de variabilidade ou planeamento inadequado, aumentam os riscos de sobrecarga, lesão e fadiga crónica, fatores que contribuem tanto para o abandono como para a perda de talento.

Em conclusão, a formação desportiva deve procurar um equilíbrio entre desenvolvimento, performance e bem-estar. A redução do abandono e da perda de talento passa pela criação de ambientes de treino diversificados, individualizados e centrados no jovem, onde o prazer, a aprendizagem e o desenvolvimento a longo prazo sejam prioritários. Mais do que identificar talentos precocemente, importa criar condições para que o maior número possível de jovens possa desenvolver o seu potencial ao longo do tempo.

“O sistema não perde apenas atletas — perde potencial de elite.”

 

ndr: Texto publicado originalmente na edição de abril de 2026 do jornal Reflexo