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Frei Cristóvão dos Reis e a importância para as Caldas das Taipas

Carlos Marques
Opinião \ terça-feira, outubro 27, 2026
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Homem muito estudioso, sempre ávido de saber, foi sem dúvida nenhuma a personagem mais notável da Farmácia do seu tempo, o seu Livro é considerada a primeira publicação sobre Ciências Naturais.

No ano de 1779, por isso há 247 anos, um Carmelita com funções de Farmacêutico e de Botânico, administrador da Botica no Convento de Nossa Senhora do Carmo em Braga, o Frei Cristóvão dos Reis  escreveu um dos seus livros, a que lhe deu o título de REFLEXÕES Experimentais METHODICO-BOTANICAS, MUITO ÚNICAS e  NECESSÁRIAS para os PROFESSORES de MEDICINA, e ENFERMOS, divididas em 2 partes. O livro foi impresso na RÉGIA OFFICINA TYPOGRÁFICA com Licença da Real Meza Censória, que faz parte do acervo da minha biblioteca.

Faz referência à qualidade curativa das nossas águas, e, estabelece aqui no ano de 1753, desde logo um Estabelecimento Termal a que dá o nome de CALDAS de CALDELAS, já com grande número de Enfermos assistidos.

Recomenda as virtudes das nossas águas e aconselha-as, a par do que fez com as águas do GEREZ.
Ele mesmo, o Frei era visita frequente das nossas cálidas águas, cuidando e vigiando-as, pois era nosso vizinho, morava como dizia a apenas légua e meia daqui, na cidade de Braga.

No ano de 1753 veio à freguesia de Caldelas, e viu aqui, água que cheirava muito a Enxofre, ficava à esquerda da estrada que vai para Guimarães, junto a um Ribeiro, o da Canhota. Aqui encontrou 5 mananciais de branda água quente, só um dos mananciais era bastante quente, a água é muito sulfúrea, que podia remediar a muitos Enfermos e haviam de ser profícuas para muitas Queixas, se houver curiosidade de fazer tanques cobertos, e que daria para aproveitar em todas as estações do ano, e, poder neles tomar banho, num sítio muito aprazível, entre duas famosas povoações, a de Braga e a de Guimarães.

Desde logo aconselhou as águas às pessoas da Freguesia que padeciam de Sarna, Frieiras e Figadais. Mandou fazer um poço e os Doentes passaram a lavar-se e a tomar banho destas águas.

Foi por isso, diria que, o nosso primeiro Diretor Clínico das Termas das Taipas da era Moderna.

Certificando-se dos bons Efeitos da água no tratamento dos Pacientes, expôs-se ao trabalho de Examinar os Minerais da água para conhecer as Queixas que a água podia remediar.

Feitas as suas Experiências, encontrou nas águas, Enxofre, Ferro e Terra Aluminosa. Como tem mais quantidade de Enxofre e de Pedra-Hume do que de Ferro e Nitro, e, como o Enxofre não está na terra sem mistura de Vitriolo, mas com porção de terra Cretácea. Descobriu assim, que esta é a razão da nossa água ser pouco quente, como ainda hoje a é, relativamente a outros Estabelecimentos Termais.

Como a água é Cretácea, Aluminosa e Vitriolada o sedimento que larga no caminho é branco, à imitação do magistério do Enxofre, o sedimento quando parada é branco-cinzento e espumoso com sinais de verde, mostrando bem os referidos Minerais. E, de facto assim é para nós taipenses que apreciamos os escorrimentos destas águas de inverno e de verão a saírem dos poços dos Banhos Velhos.

Com os calores do verão, a Ribeira da Canhota não traz água alguma até à zona das Termas, mas tem caudal a partir dos Banhos Velhos até ao desaguamento no Rio Ave, são os despojos desta água sulfúrea, que, como bem descreve Cristóvão dos Reis têm o cheiro e a coloração que ele diz, que para nós taipenses é muito agradável e bom de ver nos nossos passeios no Ribeirinho, como delicadamente chamamos ao Canhota.

Como a água dos poços que agora se perde para a Ribeira da Canhota é a mesma, e com as mesmas Virtudes Curativas de há 273 anos atrás, percebe-se que devamos novamente proceder ao Estudo e Aproveitamento, porventura com novos Furos e Sondagens, porque foi aqui que tudo começou, no 1º século desta era, pela mão da civilização romana.

O Frei Carmelita, que por aqui andou descalço, descobriu também um poço dum lavrador com água muito mais quente, diz que o lavrador se socorria dela para fazer barrelas, que fervida em cinza servia de lixívia.

Depois das experiências com Pacientes, das Análises Químicas das Águas, conclui que elas servem para tratar Enfermos de ambos os sexos com Queixas Cutâneas, como Sarna, Impigens, Lepra Seca, Asperezas de Pele, Pedra nos Rins, Diabéticos, Fluxos Alvos, Intemperanças de Fígado, e, de todas as demais Queixas causadas pelo calor e secura.

Não determina o número de Banhos, mas diz que, dado as águas serem brandas, pode cada um tomar os que as forças lhes permitirem, contanto que não sejam menos de 20 ou 25. Ainda hoje é esse o aconselhamento termal regular.

Cristóvão dos Reis, homem muito estudioso, sempre ávido de saber, foi sem dúvida nenhuma a personagem mais notável da Farmácia do seu tempo, o seu Livro é considerada a primeira publicação sobre Ciências Naturais.

O seu livro consta do Índice Biográfico dos Farmacêuticos Portugueses Notáveis, Enobrecendo e Honrando a Farmácia Portuguesa.

Teve uma formação profissional modesta, mas como era inteligente e curioso do saber, passou muito para além da média cultural da época.
As observações constantes nas reações das misturas, e de todos os imprevistos que o surpreendiam nas várias manipulações farmacêuticas, fizeram-lhe despertar a curiosidade de conhecer a natureza das drogas, dos minerais, e mesmo dos compostos químicos. Assim se explica que desenvolvesse o gosto pela ACTIVIDADE CIENTÍFICA e o ESTUDO das nossas ÁGUAS MINERAIS.

O seu trabalho revelou-lhe conhecimentos excepcionais sobre ÁGUAS MEDICINAIS, CALDAS, BANHOS, ANIMAIS, PLANTAS e MINERAIS.

A obra notável que nos deixou, sobretudo pela sua originalidade, numa época de ainda poucos conhecimentos científicos em Portugal, é considerado o predecessor do Estudo das CIÊNCIAS NATURAIS e da HIDROLOGIA.

Cristóvão dos Reis começou a reunir os materiais para o seu livro, 40 anos antes da sua publicação, por isso no ano de 1739, quando tinha 22 anos. Mas, ele mesmo no seu livro diz que começou a praticar FARMÁCIA no ano de 1732, quando ainda muito jovem, tinha apenas 15 anos.

A sua obra é um Estudo das Águas Minerais Portuguesas e uma resumida HISTÓRIA NATURAL MÉDICA descrita com Clareza e Precisão.

Fixa as Regras para determinar a Composição Química das Águas, faz a História da sua ORIGEM, e estabelece os PRECEITOS para o seu USO, e os CUIDADOS a observar pelos DOENTES.
Estuda principalmente as águas do GERÊZ, mas faz a APOLOGIA do Uso das águas de SANTO ANTÓNIO DAS TAIPAS, como também éramos conhecidos no século XVIII ao século XIX, aconselhando-as no tratamento de várias doenças herpéticas, e, foi a partir de então, do ano de 1779, que as nossas águas começaram a ser conhecidas no país, embora localmente já em uso desde 1753, o ano da sua redescoberta.

 

Caldas das Taipas, 28 de setembro de 2026

 

ndr: texto publicado originalmente na edição de outubro 2026 do jornal Reflexo