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Agostinho de Hipona e a cultura do Ocidente

Sérgio Silva
Opinião \ quinta-feira, agosto 28, 2025
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Se partilhamos a ideia de que é necessário compreender o passado para perceber o presente, não podemos negar a importância cultural de Agostinho de Hipona.

Escrevo, pela primeira vez, nesta coluna de opinião, um artigo com tema histórico, a partir do qual pretendo trazer à cena, a vida de Agostinho de Hipona (354 d.C. – 430), cujo aniversário de morte é lembrado hoje, a 28 de agosto. Figura particular da Idade Média, Santo Agostinho, um dos mais importantes teólogos dos primeiros séculos do cristianismo, foi determinante no desenvolvimento do próprio cristianismo e de uma parte substancial do pensamento da Idade Média. Neste breve artigo, tentarei, ainda que não de uma perspetiva teológica, expor a influência desta figura para a cultura ocidental.

Durante anos, Santo Agostinho foi o grande mestre da cristandade e as suas obras continuam ainda a ser muito respeitadas. Filho de um pai pagão e de uma mãe profundamente católica (Santa Mónica, cuja memória se comemorou ontem), Agostinho foi um aluno profundamente brilhante, estudando em Milão, onde se aproximou do neoplatonismo. A sua proximidade com Santo Ambrósio, que era, precisamente, Bispo de Milão, foi determinante para que, em 396 d.C., se desse a sua conversão. Não é, contudo, sobre a sua vida enquanto Padre da Igreja que me pretendo debruçar, mas antes sobre as suas obras e respetivas consequências.

É perfeitamente possível atribuir a Santo Agostinho a responsabilidade pela primeira grande síntese do cristianismo, surgida da tentativa de construir uma filosofia a partir do confronto entre as práticas e as escrituras. Na verdade, Santo Agostinho vai ainda mais longe, integrando, de certa forma, o pensamento filosófico greco-romano, pelo seu contacto direto com a filosofia neoplatónica.

De toda a sua produção, que inclui mais de 800 sermões e mais de 100 livros, há, essencialmente, 3 obras que são fundamentais. A obra Da Trindade consuma a reflexão de Santo Agostinho sobre a Doutrina da Trindade, que viria a resultar na instituição do dogma, cuja compreensão não estava ao alcance do intelecto humano. Isto foi importante para estabelecer uma filosofia cristã profundamente enraizada na fé, que teria particular influência na sua época.

É também Santo Agostinho que formula a doutrina do pecado original e da graça divina, na obra Confissões, a primeira autobiografia da História, ideias que marcariam o catolicismo, e, uns séculos mais tarde, a Reforma Protestante.

Por fim, com a obra A Cidade de Deus, um conjunto de 22 livros escritos na sequência do Incêndio de Roma em 410, Santo Agostinho defende a existência de duas cidades – a Cidade de Deus e a Cidade dos Homens, conceitos a partir da qual se esboçou uma relação entre a Igreja e a sociedade, entre uma cidade eterna e uma cidade em constante declínio.

Se partilhamos a ideia de que é necessário compreender o passado para perceber o presente, não podemos negar a importância cultural de Agostinho de Hipona. Ele, o mestre da graça divina, foi, sem dúvida, um pilar da cultura ocidental, estruturando intelectualmente o cristianismo e determinando uma parte substancial do pensamento da Idade Média.

 

(Post scriptum: um agradecimento reconhecido à minha Professora Maria João Castro, com quem muito aprendi sobre História da Cultura e a cujas aulas devo todo este conhecimento.)