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São Pedro, “a capital de Souto São Salvador”

Carolina Pereira
Sociedade \ quarta-feira, janeiro 19, 2022
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É por caminhos velhos que descobrimos um bocadinho da história de cada pessoa e freguesia. Souto São Salvador já teve a vitalidade concentrada em São Pedro. Nesta rua, toda a vizinhança era família.

Para muitos, atualmente, a rua de São Pedro pode ser apenas conhecida pelo espaço desportivo de que dispõe. Mas é bem mais do que o Campo de futebol de Souto e Gondomar. Um antigo padre da freguesia, José de Castro, chegou a chamar a esta rua “a capital de Souto São Salvador”.

Neste lugar, em cada casa nasciam cerca de 10 crianças. Quando iam para a escola ou à igreja, só de uma casa, parecia sair uma fila de uma turma inteira. ”Isto era uma alegria, agora vivo sozinha. A rua parece mais deserta, os filhos voaram, os casais já não podem dar tantas crianças. Uma pessoa agora sai e olha para cima e olha para baixo e não vê ninguém. É um bocadinho triste e nem se compara com a rua do antigamente.”, desabafa Margarida Freitas Pereira, ali residente desde os seus cinco anos.

As ruas eram preenchidas por gargalhadas, meninos a brincar à bola, ao elástico, à corda e, por vezes, até “à porrada velha”. Como é que se acabava com as brigas? Não se acabava, recorda a habitante, “Nunca nos zangamos à conta da canalha”. Hoje com 70 anos, Margarida revela que toda a sua vivência da rua teve este sentido de familiaridade. “Se havia brigas, cada pai engolia uns sapinhos e pronto. Éramos todos amigos. Sou madrinha de vários meninos daqui e os outros vizinhos são padrinhos de muitos dos meus filhos. Éramos como uma família, muito unida!”.

São Pedro ficou sobretudo conhecido por ter as crianças mais carentes da freguesia. Se alguém visse um miúdo descalço, com a cara suja e roto, dizia: “É de São Pedro”. Para sustentar tantas crianças, dava-se o que não pode faltar. “Dávamos pão, sopa, arroz, massa, não passavam fome. Outras coisas não havia, mas não passavam fome. Todos saíram da escola muito cedo. Só uma foi ao nono ano, mas iam todos trabalhar com 11 ou 12 anos. Já ajudava para comprar mais qualquer coisinha. Um saquinho de triguinho, ainda que recesso, durava a semana toda. Não havia fraldas, tinha de ser das de pano. Remendávamos lençóis que estavam rotos e ia-se fazendo assim a vida”, diz.


Deolinda Guimarães, que também cresceu neste contexto, diz que “adorou” a sua infância. A sua casa era colada à de Margarida e, com os seus 10 irmãos, conviveu com outros nove meninos. “Dávamo-nos todos muito bem, como uma família. Eu adorava viver no meio de tanta gente. Era melhor do que é agora, porque havia sempre assuntos. Não havia lugar para aborrecimento. Brincávamos muito mais do que as crianças brincam hoje em dia. Havia uma hora para jantar e assim que as mães gritavam, a rua ficava deserta. No verão, ao fim do jantar, voltávamos para a rua para brincar.”, partilha.

A rua adotou o nome do santo que ocupava uma capela antiga que, há muitos anos, lá se localizava. Margarida Pereira conta que há muitos anos, cerca de 200, os "antigos" arrumaram a capela e aproveitaram para roubar o São Pedro. Levaram-no para o Mosteiro de Souto e, agora, o santo está na Sacristia. Hoje, ainda há um cruzeiro que simboliza a capela de São Pedro; em tempos um proprietário do terreno tentou mudá-lo de sítio, mas sem êxito.


"A rua com mais história e significado da freguesia"

Margarida Pereira defende a sua rua como a que tem mais significado e história na freguesia e relembra as festas que já se fizeram. “Antigamente também se fazia a fogueira de São João. No dia 23 de junho, as crianças da escola andavam a roçar silva e a arranjar lenha para passar a noite para 24 de junho.”

Deolinda recorda que todos jantavam e no final juntavam-se num monte para dançar e cantar em volta da fogueira, mas não lhe ficou tão presente na memória quanto a tradição do Magusto. Com verdadeiro sentido de comes e bebes, essa era uma festa a que muitos aderiam. “O Magusto era mesmo uma festa. Eram os locais que organizavam e vinha muita gente de fora. Normalmente pedia-se para trazer músicos, e havia uma espécie de competição. Havia outro lugar, perto da escola primária, que queria competir connosco. Os da parte de cima da freguesia queriam competir com os da de baixo. Mas era bonito, a gente convivia e depois deixou-se de fazer porque custa organizar.”. Muitos casais uniram-se em matrimónio por causa da convivência nesta rua. Agora, poucos ou nenhuns pares daria para formar. A rua não é a mesma para quem vive com a nostalgia, mas ficam as memórias e permanecem os laços familiares.