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Montinho, banhos, rivalidades. A história da Lameira escreve-se assim

Carolina Pereira
Sociedade \ sexta-feira, maio 20, 2022
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Numa época em que o CC Taipas já fez parte da 2.ª Divisão Nacional, as pessoas eram mais “bairristas”, mas também mais “genuínas” e “unidas” aos olhos de uma mulher da Lameira.

“Eu nasci na atual rua de Nossa Senhora de Fátima, onde é o café era a casa do meu avô e eu nasci nessa casa, depois é que fui para o Lugar do Montinho. Entretanto o meu pai comprou um terreno na parte de trás do campo de futebol e fomos para lá viver”.

Fernanda Alves morava muito perto de onde a bola corria. De lá ouvia bem os ecos de quem pelo Clube dos Caçadores torcia. E, quase como automaticamente, começou a fazer parte deles, ou não fosse o pai dela Manuel Alves, um dos antigos diretores do Clube.

Tudo se passou nos anos 70. Na altura em que o pó da terra batida se levantava, as bancadas não eram cobertas e poucos clubes além do Taipas existiam. “Antigamente, as pessoas eram mais bairristas do que agora e ia mais gente ao futebol. O Taipas chegou a jogar na 2.ª Divisão Nacional, também porque não havia estes clubezinhos todos que há agora. As pessoas não tendo outras coisas, iam ver os jogos ao domingo, o campo enchia”.

Para a residente da Lameira, essa era a beleza daquele contexto: a união que se criava. “Quando os jogadores ganhavam, às vezes recebiam uns prémios, mas não recebiam salários. E as pessoas interessavam-se mais pelo clube, porque os jogadores mostravam esse afeto. Havia união”, reitera.

Para poupar nas contas, Manuel Alves pedia às filhas por ajuda em algumas tarefas. As pequenas encarregavam-se então de tratar das roupas dos jogadores. No verão era mais fácil, porque lavavam e o sol responsabilizava-se por secar. No inverno, era mais moroso, então faziam fogueiras e estendiam a roupa ao pé “e se ficasse a cheirar a fumo, azar, não havia outra solução”. Depois distribuíam as roupas por cada jogador. Na altura, as chuteiras “não eram confortáveis como agora, magoavam muito” e cada jogador tinha de usar dois pares de meias. Fernanda recorda uma peripécia entre dois dos futebolistas do Taipas. “Cada saco tinha o equipamento e o nome de cada jogador, quando foram para se equipar havia um a quem faltava a meia grossa e, sem essa meia grossa, a chuteira magoava. Nós tínhamos a certeza que tínhamos colocado para todos. O meu pai disse que ninguém saía do balneário sem que a meia aparecesse. Quem se acusou foi um cuja chuteira ficava mais larga e magoava-lhe mais o pé. Eu lembro-me desse episódio porque os jogadores da casa já estavam a aquecer e o Taipas nunca mais saía”, conta.

Trabalhar de graça acabava por nem ser mau, afinal de contas havia boas contrapartidas. “Como é que o meu pai nos retribuía? Íamos sempre com ele para os jogos e levava-nos a comer arroz de lampreia se fôssemos a Valença, ou arroz de sarrabulho em Ponte de Lima. E quem é que nessa altura fazia isso? Poucas pessoas da zona das Taipas iam comer dessas coisas. As pessoas viviam muito apertadas. Íamos todas contentes passear”, recorda.

Os tempos evoluem e, se agora não faltam vivendas e casas, há 60 anos, aquela zona habitacional resumia-se a cinco casas. “A casa do meu tio, a do Teixeira dos pentes, que tinha uma fábrica de pentes, a nossa casa, a Quinta do Rabelo e depois umas pessoas, que são dos Galhofas, que fizeram duas casas germinadas.” As casas eram poucas, mas dentro de cada uma eram criadas muitas crianças. “Tinha piada porque antes quando uma mulher ficava grávida, ficavam todas”. O que fez com que Fernanda desenvolvesse muitas amizades. “Foi bom viver lá na Lameira, eramos todos da mesma idade, andávamos todos na escola e por isso eramos muito amigos, até íamos apanhar erva para os coelhos juntos. Depois vivíamos a um minuto do rio, então todos os dias no verão o nosso banho da noite era no rio, calçávamos uns chinelos, pegávamos num pedaço de sabão rosa e íamos tomar banho”.

A rivalidade e o bairrismo estavam mais presentes em tudo, não só no futebol. Na altura, a Vila dividia-se entre os Lameira e os do Centro. “Faziam-se cortejos para tudo, agora não se faz nada. Toda a gente aderia, mas não se misturavam pessoas do Centro com da Lameira. Víamos quem fazia melhor e quem conseguia mais dinheiro. Só houve um cortejo em que um moço do centro foi no nosso carro. Foi uma espécie de aposta. Desafiaram-no e ele foi. Fui eu de noivo e ele de noiva, foi num cortejo para as obras da igreja”, refere. “Tenho saudade, acho que as pessoas eram mais genuínas. Já não se faz nada gratuito, antes quando havia alguma coisa as pessoas juntavam-se por um bem e não por benefício próprio”.