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São João de Ponte e o apoio ao “Benfica da Regional”

Carolina Pereira
Freguesias \ quinta-feira, agosto 18, 2022
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Há caminhos que contam histórias. Nesta passagem pela freguesia de São João de Ponte, o Reflexo cruzou-se com José Silva dos Santos, homem muito ligado ao clube da terra.

“Sou natural de Ponte. Esta freguesia é das maiores do concelho!” começa por dizer orgulhosamente José da Silva dos Santos, de 79 anos. “Ponte tem evoluído muito, desde há oito ou nove anos para cá”, mas nem sempre foi como agora se desenha. Através da sua memória, José detalha uma localidade de poucas casas, “uns 400 fogos na altura”, alimentada sobretudo pela agricultura, mas com uma particular tendência para a Cutelaria. “Aprendi a ler, a escrever e a fazer umas contazitas e acabei forçado a desistir da escola. Depois arranjei um emprego na área da cutelaria, porque esta zona era muito baseada nisso. Hoje ainda é, mas são meia dúzia delas, mas grandes e bem faladas a nível nacional. Antigamente eram tantas as fábricas de cutelaria! Depois é que vieram as confeções..no fundo de cada casa, sem condições nenhumas. Mas só anos mais tarde as fábricas de cutelaria começaram a ficar poucas e boas”, descreve.

Desses tempos de infância, recorda ainda os tempos difíceis das trocas de comida, das roupas remendadas e do pão que a sua mãe pendurava bem alto, para que a gula não lhe chegasse. “Eu não tenho desprezo nenhum por dizer que passei por essas dificuldades, querer comer um bocadinho de pão, que estava em casa há dias já com bolor, tirar a parte do bolor e saborear a outra ainda com o sabor bolorento. A minha mãe fazia-o e ao quarto dia já tinha cor, mas aquilo tinha de durar oito dias!”, sublinha.

Além de uns quantos grupos corais e folclore, José diz não existir muita atividade pela freguesia, mas, das poucas existentes, há uma da qual se orgulha. “Em 1986, criamos o Clube Desportivo de Ponte e, claro, levamos lá centenas de crianças pequeninas para dar educação desportiva. Fiz parte da fundação, mas agora estou velho e pus-me fora”.

Contam-se 15 anos, os de trabalho naquele clube. Numa altura em que a amizade era o que levava as atividades e projetos a bom porto e em que, segundo o nativo desta freguesia, o associativismo “era mais altruísta” e “sem oportunismos” do que o existente nos dias de hoje. “No começo, foi a força de vontade que as pessoas tiveram que levou isto para a frente. Era difícil. Primeiro que se meta no caco das pessoas que se vai fazer uma obra de custos elevados, acreditem que demora. Depois vimos mentalidades a virar e a obra a avançar. As pessoas começaram a ver e a animar e, por isso, a ajudar a dar continuidade ao processo, porque começaram a acreditar que ia dar alguma coisa de bom”, diz.

Um processo lento que se iniciou com cerca de 15 pessoas, que acreditaram e que se deixaram investir por um
sentido de responsabilidade que daria algum ânimo à terra. “Vou contar uma história que parece uma anedota, mas não é. Cheguei a ter saídas com amigos, ir para a borga, mas eu sabia que tínhamos jogo na manhã de domingo e cheguei a casa com os meu colegas eram para aí 4h00 da madrugada. Na época de inverno é muito de noite. O que é que eu faço? Pensei: se vou para a cama, adormeço e nunca mais acordo. Eu era o responsável, portanto fui para lá. Liguei os holofotes, preparei tudo o que tinha a preparar, umas duas horitas a fazer as tarefas que me cabiam e só no fim fui descansar. Tive de fazer o sacrifício por uma questão de responsabilidade, que era o que nos guiava”, conta.

Poderá ser, talvez, uma característica dos habitantes de Ponte. A dedicação que oferecem ao que tem a ver com a terra. Porque lhes dá força. Prova disso foi a fama que o clube, ganhou “no começo, quando iam jogar fora” devi- do à quantidade de apoiantes que seguiam para acompanhar e aplaudir os jogadores. “Destacávamos-nos em relação as outros porque enchíamos as casas que visitávamos. Chamavam-nos o Benfica da Regional, porque levávamos o acompanhamento que nenhum outro clube levava. Para eles éramos fortes demais, mas só para eles, apenas por serem mais fracos, porque na verdade não éramos assim tão bons.”. E se assim era para outras freguesias, imagine-se quando o clube jogava em casa. Uma hora antes do jogo, uma enchente de gente ansiosa por arranjar o seu espacinho junto ao campo ocupava as ruas. “Isso foi-se perdendo” e contrasta com o que se vê e sente nos dias de hoje, mas, ainda assim, José acredita que não têm “grande razão de queixa. Ainda vê pessoas a assistir aos jogos e sente-se feliz pelo presente do seu clube. “Tenho gostado do rumo que o clube tem tomado, temos evoluído. É engraçado que agora começa-se no escalão que no meu tempo era o mais alto”, refere.

O antigo diretor e fundador lembra como perdeu tanto tempo ligado ao desporto e como, em momentos, isso afetou um pouco a dinâmica  familiar, mas sente-se grato pela experiência de vida que tudo lhe deu. “É complicado, numa posição como a minha, tinha de dar muito do meu tempo, ao assumir a responsabilidade deixei de ter fins de semana e a minha esposa queria ir visitar amigos ou familiares num fim de semana e ficava presa por minha causa, mas foi muito compreensiva. Dei o meu contributo e estou feliz por isso”.