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Carreiro das Veigas: um caminho que encaminhou muitos casamentos

Carolina Pereira
Sociedade \ quinta-feira, novembro 25, 2021
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É por caminhos velhos que descobrimos um bocadinho da história de cada pessoa e freguesia. Tempos antigos em que se ia a pé pelas Veigas, em Santa Leocádia, para cruzar com amigos, ou maridos.

Conceição Costa, natural de Santa Leocádia, recorda como era a vida de há cerca de 60 anos na sua freguesia. Briteiros Santa Leocádia tinha menos casas e menos estabelecimentos, mas tinha mais vida, já que as famílias eram mais numerosas. Apesar da pobreza, Conceição não se cansa de bendizer a vida que se levava.

“Nós não sabíamos que as coisas melhores existiam. Hoje sabemos comparar, mas antes não sentíamos que eramos infelizes porque não conhecíamos o que existia de melhor”, explica a residente.

Por norma, não se precisava de sair muito daquela área. Quando se descia até à freguesia vizinha, de Briteiros São Salvador, seria para, por exemplo, ir à missa ou ter acesso a cuidados de saúde. A população descia pelo meio dos campos, até ao lugar onde agora se conhece como Casa do Povo de Briteiros, para ter acesso ao que era o centro de saúde da altura. Até aí, percorria-se o carreiro das Veigas.
“Usei muito as Veigas para vir ao médico com os meus irmãos pequeninos ao colo. Era muito difícil sobretudo no inverno, descalços, com regatos com lameiro. Recordo-me de vir com alguns dos mais novos porque nasciam com a língua presa. Chama-se cortar a trave. A minha mãe só dava por ela quando começavam a palrar e a língua ficava com um fiozinho preso. Antigamente era assim que se dava por ela e tinha de se tratar.”, relembra.

Era uma viagem de 40 minutos, em que entre crianças, havia alguma necessidade de entretenimento e, ou se comia os brotos tenrinhos das rosas que encontravam, ou se cantava. “Inventávamos cada uma! (risos) Há um cântico que tem um verso que diz “miraculosa rainha do céu” e nós brincávamos e cantávamos assim:  mira gulosa rainha da broa, quero meio quilo, custa uma coroa, quero quatro quilos custa dois e meio, vinde raparigas ao pão do centeio.”, canta Conceição.

Não era um caminho direto. E com chuva e neve no chão, pelo inverno, mal calçadas, a dificuldade tornava-se maior. Tempos apertados. Naquela época, a residente recorda que pelos seus 17 anos recebeu os primeiros sapatos. “A minha mãe era uma mulher muito poupadinha e como tinha muitos filhos ela precavia-se para ter o que comer e o que vestir. Nós fazíamos o percurso até às taipas, à feira, a pé e carregadas. Uma altura, a minha mãe deu-nos umas soquinhas de pau, para o domingo, era o que havia e não nos sentíamos diminuídas por causa disso porque toda a gente passava por isso”.
“Os caminhos ligam muito as pessoas. Ligaram-me ao meu marido”

Na sua juventude, não só por Santa Leocádia Conceição e as irmãs se deixavam ficar. Combinadas, iam vários domingos a pé até ao Bom Jesus. E por mais devota que seja a nativa, esta admite que não era bem com intenções religiosas que fazia o caminho. “Por mais que eu seja católica praticante a 100%, era para ver a malta nova que lá parava. Estavam lá os rapazinhos e era por ali por volta do coreto que encontrávamos os primeiros namoricos”. Não é como se os pais não soubessem as motivações de cada uma para essas visitas assíduas a Braga, bem sabiam que tinha de haver um ponto de encontro entre a juventude.

Como os pais tinham a taberna, também lá se fazia convívios. De várias freguesias ao redor, vinham jovens, não propriamente pela taberna dos pais de Conceição, mas por quem lá se juntava. “Nós ainda tínhamos bastantes moços a ir à venda dos meus pais, não só para jogar às cartas ou malha, mas porque também havia lá moças. Foi assim que conhecemos os que foram nossos maridos. O meu marido era de São Martinho de Sande. Assim se arranjaram alguns casamentos. Os caminhos ligam muito as pessoas. Nessa altura, em que a freguesia era pequena e era preciso ir a outros sítios para conhecer gente, ligaram-me ao meu marido”.

Hoje, ninguém circula pelas Veigas. Conceição explica que foi vedado depois de alguns habitantes adquirirem terrenos. Por ser um caminho que servia o povo, muita gente se revoltou contra a Junta na altura, mas a pouca escolaridade não permitiu que a voz do povo fosse ouvida e por isso, agora, restam apenas memórias e uma escada onde se descia de um campinho mais alto para outro.