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O título europeu que Guimarães merece

Sara Martins
Opinião \ quinta-feira, outubro 18, 2018
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O Avepark nunca foi sustentável, e nunca esteve sequer perto dos objectivos propostos, o que faz daquele projecto um rotundo falhanço. O Avepark falhou redondamente por incompetência da CMG.

A semana passada foi notícia a atribuição do prémio Regio Stars, ao Centro de Negócios do Fundão. O Regio Stars é um prémio atribuído pela Comissão Europeia e distingue projetos financiados por fundos europeus que sejam exemplo de coesão e desenvolvimento regional. É uma espécie de Oscar das regiões dado a quem gasta bem o dinheiro que vem da Europa.

O Fundão tem desafios enormes de desenvolvimento, pela sua localização geográfica e pela sua baixa densidade populacional. Apesar disso, o Fundão consegue ser um exemplo de boas práticas a nível europeu. E é-o porque pensou e executou uma estratégia que envolve a população.

O centro de negócios do Fundão é um investimento de 2,4 milhões de euros do município que pegou num pavilhão multiusos degradado e transformou-o na “casa” de cerca de 400 programadores informáticos. Em poucos anos este projecto já atraiu dezenas de empresas, criou 500 postos de trabalho e incubou 68 startups.

E porque é que estamos a falar do Fundão? Porque só conhecendo outras realidades é que temos a capacidade de fazer uma reflexão crítica sobre o nosso município e a sua gestão. Porque é que com condições geográficas, sociais e económicas incomparavelmente melhores Guimarães não consegue ser exemplo?

O Avepark, foi inaugurado em 2008, e a projecção a 10 anos era que tivesse 200 empresas e 5000 postos de trabalhos. Segundo o site da câmara, Set.Up Guimarães, o Avepark tem  actualmente “4 entidades” - SpinPark, 3B’s, IPCA e Farfetch, e 6 empresas incubadas.

O plano de negócios inicial previa como receitas o recurso a linhas de crédito e a venda de terrenos. Creio que os dedos de uma mão  chegam para contar os terrenos vendidos nestes 10 anos. Quem visitar o Avepark verá mais vacas a pastar naqueles lotes que edifícios construídos.

Tentei pesquisar valores para ter uma ideia do dinheiro público que já foi gasto no Avepark, não consegui, não há informação pública disponível. Desconfio, que ninguém saberá ao certo quanto do nosso dinheiro está lá enterrado. Mas são muitos milhões, muitos mesmo.

O Avepark nunca foi sustentável, e nunca esteve sequer perto dos objectivos propostos, o que faz daquele projecto um rotundo falhanço.

A Câmara Municipal de Guimarães (CMG) justifica esse falhanço com a falta de vias de acesso e por isso reclama uma estrada de milhões de euros para ganhar 8 minutos na chegada ao aeroporto! Não é sequer preciso ir ao Fundão, que está a duas horas e meia do aeroporto, para desmontar este argumento falacioso, basta olhar para lá da rede que separa o Avepark do Parque Industrial da Gandra que, com piores acessos conseguiu crescer e atrair novas empresas.

O Avepark falhou redondamente por incompetência de quem o gere, ou seja a CMG, que sempre teve maioria do capital até adquirir a sua totalidade em 2013.

As políticas municipais em Guimarães não são pensadas tendo em conta o concelho, a sua realidade, especificidades e necessidades da população, como prova a proposta de via dedicada ao Avepark. Um município agregador e apostado no desenvolvimento e coesão do seu território não proporia uma via que pretende servir exclusivamente um equipamento. Antes teria uma visão global da região, sem medos ou assombros sobre o seu crescimento.

Apesar deste currículo vergonhoso de incompetência e má gestão, o nosso município reclama agora, ao governo e à Europa, mais 200 milhões de euros para a implementação de um novo projecto de ciência e tecnologia no concelho. A CMG está, pois, empenhada no título de pior exemplo da Europa.