O que é uma comunidade?
Numa época em que os nacionalismos exacerbados estão na ordem do dia e proliferam por esse mundo fora faz sentido reflectir sobre a ideia de conceito de comunidade.
A comunidade maior existente é o Estado, caracterizando-se como um povo, instalado num território, com língua e símbolos comuns e herança cultural comum.
Nesse Estado crescem micro comunidades com características culturais, a partir da base Estado, que se diferenciam das restantes.
E, numa escala decrescente, chegámos até à comunidade administrativamente mais pequena, a freguesia.
Por força da carga administrativa imposta, a freguesia, naturalmente, é agregadora para criar uma comunidade, confluindo e consolidando interesses comuns que se transformam, com o tempo, em características comuns: porque as suas festas populares são diferentes da freguesia vizinha; que têm ritos e práticas diferentes, que têm objectivos diferentes.
Existe, e é bom que exista, competição pelo diferente e pela fixação de características comuns para que o sentido de comunidade se possa afirmar.
O sentido de pertença é uma característica biológica dos seres humanos, vem do ventre das nossas mães.
Essa característica estende-se ao social: sentimo-nos melhor quando nos integramos numa comunidade, entendendo-a como nossa e ao mesmo tempo pertencendo-lhe.
A constituição da União Europeia veio acrescentar a emergência de que, para além da comunidade família, bairro, escola, freguesia, clube, concelho, região, Estado, somos do mundo e que esse mundo seja de paz e prosperidade para todos.
É um novo conceito de comunidade que bem se poderia estender ao mundo inteiro, como defende a corrente dos Cosmopolitas.
Existe ainda o conceito de nação, que não coincide com o conceito de Estado por causa, principalmente, da ausência de um território determinado e trata-se de pessoas que comungam da mesma língua, da mesma base cultural, às vezes, da mesma nacionalidade.
Os portugueses do território de Portugal, os espalhados pelo mundo e os seus filhos a quem é transmitido o legado cultural, são a nação portuguesa.
Sou avesso a nacionalismos extremistas que colocam em causa todo um processo, de dezenas de anos, conducente à abertura económica, social e cultural dos estados, apanágio da União Europeia como exemplo mais desenvolvido do mundo.
Os nacionalismos extremos separam os seres humanos conforme a sua origem, numa dicotomia de nós e os outros e que os outros são o inferno, são a causa dos nossos problemas.
Numa freguesia, o sentido de comunidade tradicional existe muito pela acção da igreja católica que congrega as pessoas à volta do seu edifício religioso.
O sentido de comunidade, qualidade de ser comum, é ainda reforçado pela pertença às associações e à frequência das suas actividades na realização de interesses comuns.
Infelizmente, as comunidades ao nível da freguesia sofrem da erosão provocada pela urbanização crescente das localidades: repare-se que em muitas freguesias os “lugares” desapareceram dando “lugar” às ruas. Esta configuração, fruto dos tempos, reduz o sentido de comunidade.
Dentro destas comunidades existentes por grandeza hierárquica, como se deve entender as suas relações? de incompatibilidade? de concorrência? de coexistência? de integração?
Nunca de incompatibilidade; de concorrer sem anular; em coexistência efectiva; de integração vertical.
A freguesia, com os seus órgãos têm, assim, a responsabilidade de agregar, unir, criar comunidade, criar interesses comuns e promover participação.
Nas Taipas, esta necessidade é mais premente, para que o sentido de comunidade não se esvaia numa urbanização e alheamento crescente.
O empreender iniciativas intensas de promoção do sentido de comunidade fará a distinção futura entre residentes e comunidade.
ndr: Este texto foi originalmente publicado na edição de junho de 2026 (suporte papel) do jornal Reflexo