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Nunca conheças os teus heróis

Pedro Mendes
Opinião \ quinta-feira, fevereiro 11, 2021
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Aung San Suu Ki, antes um ícone da paz e da luta pela liberdade, pode agora muito bem acabar no banco dos réus a ser julgada pelo genocídio do povo Rohingya.

“Nunca conheças os teus heróis, ou o mais provável é que eles te desapontem.”

Esta frase, cuja autoria desconheço, encaixa que nem uma luva no tema que hoje aqui vos trago, caros leitores.

O Mianmar, antiga Birmânia, foi alvo de mais um golpe de estado militar levado a cabo pelos Generais no passado dia 1 de fevereiro. Os Generais, relembremos, tinham já governado pela força o país após um golpe de estado em 1962, tendo a ditadura durado até 2011, altura em que os militares acederam, pacificamente, a que o país sofresse alguma abertura democrática, embora essa transição tenha permitido aos militares a manutenção de uma boa parte do poder, nomeadamente através da possibilidade de escolha de ¼ do parlamento.

Porém, esta abertura acabou na manhã do passado dia 1, com a detenção da Conselheira de Estado Aung San Suu Ki e do Presidente Win Myint. Ora eu não queria focar-me muito na questão do golpe de estado, sobre o qual podem obter muita informação útil carregando neste link, queria antes focar-me na Conselheira de Estado Aung San Suu Ki.

Aung San Suu Ki, filha de Aung San, o pai da Birmânia moderna e que foi primeiro-ministro do país, era uma das minhas heroínas da juventude. Já por aqui tive oportunidade de vos dizer que desde novo tive grande interesse pelos temas internacionais, e, nos meus anos de formação, Suu Ki, a par de Xanana Gusmão, era um dos maiores faróis da paz, resistência e luta pela liberdade (havia, claro, Mandela, mas na minha juventude, já Mandela estava livre e quase a abandonar o poder na África do Sul). Aung San Suu Ki foi Prémio Sakharov em 1990 e Prémio Nobel da Paz em 1991, logo após a sua prisão, que ocorreu ainda antes das eleições de 1990, e nas quais o seu partido obteve uma ampla maioria (59%). Aung San Suu Ki foi mantida em cativeiro até 2010, ano em que, após uma longa luta diplomática e após grandes pressões internacionais, foi libertada. Após a sua libertação, deu-se a supracitada abertura democrática do país, e Suu Ki foi nomeada Conselheira de Estado, cargo criado propositadamente para ela, uma vez que pela legislação em vigor, esta não se poderia candidatar ao cargo de presidente do país, por ser casada com um estrangeiro e ter filhos estrangeiros.

Ora, a partir deste momento é que o mundo conhece a sua heroína. Desde que ocupa o cargo de Conselheira de Estado, cargo que faz dela de facto líder do país, Mianmar tem estado sob a mira internacional pelos piores motivos, sendo o mais grave o genocídio da população Rohingya, um grupo étnico que pratica o islamismo, levada a cabo pelo exército na província de rakhine no norte do país. Suu Ki não só nada fez para o evitar, apesar dos vários sinais de crescente tensão entre o exército e a população, como quando ele aconteceu negou veementemente as atrocidades cometidas, descritas pelas Nações Unidas como um exemplo clássico de uma limpeza étnica, ou seja, um genocídio. Neste massacre, que teve início em 2017,  estima-se que terão morrido milhares de homens e mulheres rohingya e que perto de 700 mil terão fugido para o Bangladesh, causando um dos maiores desastres humanitários do Sec. XXI.

Como o espaço é curto, deixo-vos aqui outro link no qual podem saber tudo sobre o genocídio dos Rohingya.

Aung San Suu Ki, antes um ícone da paz e da luta pela liberdade, que chocou o mundo e lhe retirou uma das suas heroínas, pode agora muito bem acabar no banco dos réus a ser julgada pelo genocídio do povo Rohingya.

“Nunca conheças os teus heróis, ou o mais provável é que eles te desapontem.”