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O Pacto Social

Pedro Mendes
Opinião \ quinta-feira, janeiro 20, 2022
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Os números dizem-nos que estamos a construir sociedades cada vez mais desiguais, com a riqueza gerada a ser, cada vez mais, acumulada por poucos

Já por cá vos falei, caro leitor, do famoso texto, primeiro, e livro, depois, de Francis Fukuyama, O Fim da História e o Último Homem, em que este preconizava que a prevalência das democracias liberais e o livre capitalismo de mercado anunciavam a vitória do liberalismo democrático sobre as ditaduras. A questão que hoje vos trago já não é se Fukuyama tinha razão, essa conclusão parece clara, não. Os regimes anti-democráticos têm ganho terreno um pouco por todo o mundo. A questão que vos trago é perceber se irão estes regimes influenciar a governança no mundo ocidental, até aqui predominantemente liberal?

Vejamos. Os regimes ditatoriais estão a ganhar terreno e estão, cada vez mais afirmativamente e de várias formas distintas a alargar o seu domínio ou prevalência sobre várias regiões geográficas do planeta. A China, com a sua ascensão cada vez menos silenciosa, já não se coíbe de reprimir fortemente as manifestações pró-democrátricas em Hong Kong, ou de vocalizar as suas intenções em relação a Taiwan, ao mesmo tempo que desenvolve uma estratégia de controlo económico de grande parte do continente africano, e até, sejamos claros, de alguns estados europeus, com compras selectivas de empresas de sectores estratégicos em vário países da União Europeia, incluindo Portugal. A Rússia afirma cada vez mais a sua influência na região euro-asiática, não se coibindo, de enviar tropas para o Cazaquistão para ajudar a reprimir manifestações contra o governo de Tokaiev, qual repetição do Pacto de Varsóvia, tudo isto ao mesmo tempo que tem preparada e pronta a iniciar-se uma nova incursão em território Ucraniano, tudo isto sem esquecer o que se tem passado no último ano na Bielorrússia, sempre com a conivência e apoio de Putin. Mas não são só a China e a Rússia. Maduro continua no poder numa depauperada e errante Venezuela e Erdogan continua o seu processo de radicalização da Turquia, já para não falar dos estados do médio-oriente, com maior ou menor suporte ocidental ou oriental (qual tabuleiro da guerra fria), que são estados ditatoriais com violações gravíssimas dos direitos humanos e civis. Resumindo, os maus vão fazendo o seu caminho, caminho este muitas vezes pavimentado pelo sucesso económico, como é o caso da China, ou pela detenção de recursos energéticos naturais, como é o caso de todos os outros.

Como pode o Ocidente Liberal resistir a estes avanços, numa altura em que temos já exemplos de países na orla liberal que estão a ceder à tentação, tais como a Hungria ou a Polónia?

A resposta a esta questão é relativamente simples, embora a solução para o problema seja extremamente complexa. O ocidente liberal só vai conseguir fazer prevalecer o seu modelo se for capaz de manter com os seus cidadãos o pacto social não escrito que vigorou no pós-2.ª Guerra Mundial, assente numa sociedade cada vez mais igualitária, num modelo social inclusivo e que permita resgatar aqueles que caem nas falhas da sociedade e numa sociedade justa e humanista. Ora e aqui reside o grande problema. O Ocidente não tem sido capaz de honrar esse compromisso com os seus cidadãos. Os números dizem-nos que estamos a construir sociedades cada vez mais desigual, com a riqueza a ser gerada a ser cada vez mais acumulada por poucos, ao mesmo tempo que cada vez mais se vêm com condições de vida mais difíceis. Contrariamente às teses económicas mais liberais, o problema não está na geração de riqueza, ela continua a ser gerada, embora com crises mais ou menos normais nos ciclos económicos, o problema está na sua distribuição e redistribuição, que é, efectivamente, o factor de estabilidade das sociedades. Sociedades mais desiguais têm tendência a procurar profetas populistas que lhes garantam soluções simples para problemas complexos, mesmo que não as tenham.

Em resumo, caro leitor, a capacidade de manutenção do liberalismo ocidental não depende só da vontade de lideranças temporárias, depende sim da capacidade de os estados e as instituições honrarem o pacto social com as populações, da melhoria da qualidade de vida da sociedade e da capacidade de geração de uma sociedade cada vez mais próspera mas também igualitária.