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Notas de uma guerra anunciada

Pedro Mendes
Opinião \ quinta-feira, março 17, 2022
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Como escrevi nestas páginas num artigo publicado a 16 de Dezembro de 2021, era uma questão de tempo até esta absurda invasão da Ucrânia pela Rússia começar.

Infelizmente, esta invasão tomou proporções verdadeiramente inimagináveis mais rápido do que aquilo que esperávamos, e, num futuro próximo, não se avistam melhorias significativas, bem pelo contrário. Putin, um ditador sanguinário numa deriva imperialista sem fim à vista, parece determinado a não deixar pedra sobre pedra enquanto não conseguir o seu objectivo, que deverá passar pela deposição das actuais lideranças ucranianas e pela colocação no poder de um governo fantoche comandado efectivamente a partir do Kremlin. Para isso, Putin está a demonstrar em Mariupol que pode, se a resistência continuar, fazer a toda a Ucrânia o que fez a Grozny ou a Alepo, onde deixou um rasto de destruição total e absoluto para conseguir atingir os seus objectivos.

Obviamente, muito haveria a dizer sobre esta guerra, da gigantesca alma do povo ucraniano até à grotesca prática de crimes de guerra pelos Russos, mas o que lhes queria aqui deixar hoje, caros leitores, é uma série de notas soltas, algumas delas conflituantes e paradoxais, sobre esta maldita guerra anunciada.

Muita gente tem elogiado fortemente a resposta da comunidade internacional a esta barbárie cometida pela Rússia, nomeadamente a resposta da União Europeia. Sim, é verdade que a União Europeia foi célere na imposição de sanções e foi mais longe do que muitos de nós pensávamos antes desta guerra, mas, na realidade, a União Europeia fez o mínimo exigível perante tal atropelo do Direito Internacional, sendo que, e aqui começam os paradoxos, muito dificilmente poderia ter feito mais. Menos do que uma clara condenação e isolamento total e completo da Rússia era inaceitável, mas ,mais do que isso, poderia significar uma escalada absurdamente perigosa num conflito com uma das maiores potências nucleares do mundo.

Na mesma linha de pensamento, podemos pensar que houve um certo adormecimento da comunidade internacional nos meses que antecederam a invasão. Muitos de nós poderíamos pensar que, perante tão flagrantes evidências das movimentações Russas, era imperativo armar os ucranianos para que, chegada a hora, se defendessem da investida Russa, ao invés de esperar pela invasão para enviar armas para Kiev. É um pensamento lógico, mas, ao mesmo tempo, qualquer resposta deste tipo seria encarada por Moscovo como um pretexto (que, realisticamente não teve) para justificar esta injustificável invasão. Paradoxo em cima de paradoxo.

Putin é visto como um líder forte, e olha para os líderes europeus, que permitem aos seus cidadãos todas as liberdades e mais algumas, como líderes fracos. Esta visão tem feito escola em algumas famílias políticas europeias, nomeadamente na direita populista de Salvini (que como bom populista já virou o bico ao prego, mas que foi honrosamente humilhado pelo Presidente da Câmara de Przemyśl), Le Pen e Orbán, mas, na realidade, tem-se revelado um líder fraco e medroso. Já nem vou falar dos alegados esquemas que alguns generais terão perpetrado para enganar Putin no que ao real armamento que o exército Russo possui diz respeito, mas quão fraco é um líder que manda prender pessoas que protestam com cartazes em branco? Quão medroso é um líder que manda prender idosas que lhe ousam fazer frente? Quão fraco é um ditador que tem de enganar flagrantemente o seu povo?

Muita informação e contra-informação tem rolado pela comunicação social e pelas redes sociais, mas, aparentemente, Putin terá cometido alguns erros que até há bem pouco tempo seriam impensáveis, pelo menos tendo em conta a imagem de calculista que dele se foi criando ao longo dos anos. Começando pela clara sub-avaliação da resistência ucraniana, passando pelo reposicionamento da Alemanha (que Putin terá pensado que jamais abdicaria do conforto do seu gás, mesmo que em parte, pensando ainda que isso condicionaria fortemente a resposta europeia à invasão) e acabando na anedota logística em que o exército russo se tem transformado, Putin tem acumulado erros que demonstram que está transformado num rei-sol, emborrachado pelo poder e pela sua auto imposta grandeza, que ouvirá poucos e apenas aqueles que com ele concordam e que se estará a enganar tanto a si próprio como tenta enganar o seu povo.

Não obstante tudo o que antes disse, há uma nota que não posso deixar de dar, e que me entristece grandemente. A campanha de propaganda Russa tem surtido muito mais efeito do que o desejado na comunidade ocidental, nomeadamente em Portugal, e, inclusive, com alguma representação político partidária, inexplicavelmente. Não. Neste momento nada justifica que façamos paralelos entre a NATO e a Rússia. Não. Os líderes da NATO e do Ocidente não são responsáveis, mesmo que em parte, por esta invasão. Esta invasão é, apenas e só, da inteira responsabilidade de Putin. Mais ninguém. Não. A Ucrânia não fez nada que justificasse esta invasão. Se, porventura, um dia quisermos discutir a NATO, os Estados Unidos, a União Europeia, e todos os erros cometidos ao longo dos últimos anos, e foram alguns, podemos discuti-los, mas não é sério fazê-lo neste contexto e muito menos tentando relativizar a absoluta barbárie que está a acontecer neste momento.

Continuando, e apenas esta nota daria para escrever um artigo inteiro, importa perceber, ou tentar perceber, a posição da China neste conflito. Estará aqui, muito provavelmente, a chave da resolução deste conflito. Até onde estará disposta a China a ir para segurar as mãos ensanguentadas de Putin? Durante quanto mais tempo a China ganhará com esta cratera aberta no coração da Europa? Quão importante é este conflito para a unicidade da China? Tudo isto são respostas por dar e, destas respostas dependerá a capacidade da Rússia de continuar este conflito e, tragicamente, destas respostas dependerá a vida de milhares de pessoas, homens, mulheres e crianças cujo único crime que cometeram foi terem nascido na Ucrânia.

Por último, mas não menos importante, uma palavra para Marina Ovsyannikova, a editora da Televisão Estatal Russa que irrompeu no cenário do Telejornal para dizer aos Russos que lhes estavam a mentir.

Como cantava Adriano Correia de Oliveira, na triste mas bela Trova do Vento que Passa, de Manuel Alegre:

Mesmo na noite mais triste
Em tempo de servidão
Há sempre alguém que resiste
Há sempre alguém que diz não.