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Gorbachev

Pedro Mendes
Opinião \ quinta-feira, setembro 01, 2022
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Algumas vezes de forma mais consciente, outras inconscientemente, Gorbatchev criou condições para uma mudança radical no mundo.

No tasco dos meus pais, os jornais passavam de mão em mão entre os clientes, que demoravam largos minutos para os ler, fossem eles desportivos ou generalistas. Ao sábado vinham os “senhores de Guimarães”, clientes assíduos que, na sua maioria, jogavam às cartas durante a tarde, regados com o bom vinho verde que era tradição da casa e refastelados com os cozinhados da minha mãe. Mas nem todos jogavam às cartas. O Sr. Abreu, julgo não me enganar no nome, trazia consigo o Expresso que lia, da primeira à última página, durante grande parte da tarde. Por esses dias, e quando não estava entretido a jogar futebol com os meus amigos no largo, eu ia espreitando os cadernos do jornal que ele não estava a ler. Estávamos no início dos anos 90, época em que a nossa zona passava por algum fulgor económico, e onde prosperava a cultura dos cafés e dos tascos, onde os homens, dos jovens aos mais idosos, passavam por lá tardes e noites a fazer tudo e nada, das tainadas à sueca, das conversas ao balcão até conversas sobre este mundo e o outro pela noite dentro. Foi nessas conversas e nas páginas dos jornais, os do tasco e os do Sr. Abreu, que um puto reguila ouviu falar pela primeira vez da antiga União Soviética e “do Gorbachev”. A partir dai, não mais esses nomes me sairam da cabeça, alimentado pelos livros de história e de geografia que, como já vos contei, não me saiam da mesinha de cabeceira. Aí aprendi o que foi a perestroika e a glasnost, as políticas de abertura e transparência que Gorbachtev implementou na URSS a partir de 1985, e todos os acontecimentos que levaram ao desmantelamento da URRS em 1991. A União Soviética tem uma história fascinante. Brutal, absurdamente brutal, mas fascinante, e o período de governação de Gorbatchev não só não é excepção como é até dos mais fascinantes.

Gorbachev herdou uma União Soviética economicamente estagnada e que estava a lutar para se manter a par dos EUA, o seu arqui-rival de há décadas e com quem partilhava o domínio mundial. Com a implementação da perestroika e da glasnost, Gorbachev tentou ao mesmo tempo recuperar a economia soviética e trazer as pessoas para junto do seu projecto político, permitindo-lhes ter uma opinião sobre o que acontecia no país, ao mesmo tempo que acabava com a maldita guerra no Afeganistão e abria a URSS ao mundo, negociando diretamente com os EUA a redução e destruição de armamento acumulado durante a Guerra Fria. Outra grande mudança em relação aos seus antecessores, foi a atitude do regime em relação aos estados comunistas “suportados” pela URSS. Enquanto outros enviaram tanques para reprimir qualquer sublevação, Gorbatchev escolheu uma política de não intervenção, permitindo que países como a Polónia, a Checoslováquia, a Roménia ou a RDA entrassem em convulsões políticas que levariam ao fim dos seus regimes comunistas.

Contrariamente ao que muitos possam pensar, caro leitor, Gorbachev não agiu de forma deliberada para acabar com a União Soviética. Embora fosse um líder muito mais liberal que todos os seus antecessores, na realidade Gorbachev tentou, à sua maneira, com a perestroika e a glasnost, revitalizar a URSS. Foram estas reformas e esta cadeia de eventos levou a que se criassem condições para acabar com a URSS, mas a sua queda não foi um acto planeado.

Já em relação à Guerra Fria, julgo ser seguro dizer-se que Gorbatchev tinha planos claros para acabá-la, procurando para isso negociar com Reagan por forma a que, gradualmente, as potências se fossem desarmando e desmantelando os seus arsenais, principalmente os nucleares, permitido que ambas as nações, e o mundo que as seguia, se focassem noutras coisas que não o constante confronto retórico dos 40 anos anteriores.

Não obstante, algumas vezes de forma mais consciente, outras inconscientemente, Gorbatchev criou condições para uma mudança radical no mundo. Arrisco-me a dizer que poucos líderes tiveram tanto impacto na ordem global como Gorbachev.

Termino, caro leitor, onde comecei, no tasco dos meus pais, para deixar aqui a minha homenagem a um homem que, pelas suas acções, algumas propositadas, outras nem tanto, permitiu acabar com o “muro da vergonha”, como era apelidado o Muro de Berlim nas conversas de café, que acabou com a Cortina de Ferro, e que permitiu a milhões e milhões de pessoas saborear a liberdade.

Obrigado, Gorbatchev.