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Da economia na América

Pedro Mendes
Opinião \ quinta-feira, abril 08, 2021
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Diz o ditado que um mau artista copia e que um bom artista rouba.

“A certeza de que, mesmo nos momentos mais difíceis, o estado está lá para garantir a dignidade a todos e a cada um de nós, é impagável.”

Diz o ditado que um mau artista copia e que um bom artista rouba. Pois, caro leitor, este que vos escreve decidiu hoje roubar e adaptar o título da seminal obra que Tocqueville escreveu no Sec. XIX sobre a fervilhante democracia norte americana. Do ponto de vista das ideias políticas e sociais não sou grande fã de Tocqueville, e nos meus tempos da academia travei com os meus pares debates interessantes sobre as lacunas da sua obra, nomeadamente no que diz respeito ao esquecimento do racismo, pobreza e desigualdade nos EUA, mas a verdade é que o relato apaixonado sobre o processo democrático dos EUA que Alexis de Tocqueville nos conta em “Da Democracia na América” é merecedor de nota e, acima de tudo, de estudo.

Dito isto, e roubado o título, vamos agora ao que interessa neste artigo que vos escrevo. Os EUA recuperaram no mês de março mais de 916 mil empregos para a sua economia, deixando a taxa de desemprego nos 6%. Leu bem, caro leitor. Quase 1 milhão de empregos recuperados num só mês. A estes números juntamos os quase 700 mil empregos criados em janeiro e fevereiro. A estes números juntamos os mais de 11,5 Milhões de empregos recuperados em 2020. Estes números são verdadeiramente estonteantes, mas é preciso analisá-los à luz de todos os factos, sendo que o facto mais relevante a contrapor é o número de empregos perdidos durante a pandemia: 22 Milhões. 22 milhões de pessoas perderam o seu emprego durante a fase mais aguda da pandemia.

Todos estes números são explicados por vários motivos, sendo o maior deles a grande flexibilidade do mercado laboral norte americano. Para termo de comparação, os EUA tinham em fevereiro de 2020, antes do início da pandemia, uma taxa de desemprego de 3.5%, taxa esta que cresceu em abril de 2020 para os 14.8%, sendo que na Zona Euro a taxa de desemprego cresceu de 6.5% em fevereiro de 2020 para o ponto mais alto de 8.7% em agosto de 2020.

Ora esta flexibilidade do sistema americano, que permite a espectacularidade desta recuperação, tem a outra face da moeda: durante um dos momentos mais difíceis da nossa geração, milhões de pessoas ficaram desempregadas, sem protecção social e com as suas vidas destruídas. Quem não se lembra das imagens chocantes de filas de dezenas de quilómetros de carros para receberem ajuda alimentar? Carros estes de uma classe média destruída, que de um momento para o outro se viu na desgraça ao ponto de ter de pedir comida para dar aos seus filhos? Em comparação, e apesar dos momentos difíceis que vivemos na europa, o modelo social europeu foi capaz de resistir e garantir relativa estabilidade laboral aos europeus. Programas de Lay Off como o que o que governo Português implementou salvaram milhares de empregos em Portugal e milhões na europa, e permitiram manter de pé a arquitectura económica e empresarial do país e da União Europeia, ao mesmo tempo que garantiram aos europeus relativa estabilidade e segurança. Todos os modelos económicos e sociais têm as suas vantagens e desvantagens, e agora chegados ao momento da recuperação, podemos achar que o “nosso” modelo social europeu fica em desvantagem em relação ao liberalismo americano, mas a verdade é que, apesar do enorme sofrimento que esta pandemia causou em todo o mundo, nós por cá fomos capazes de dar aos nossos, neste momento difícil, a segurança de um salário, mesmo que por vezes cortado e a protecção social num putativo desemprego.

Claro, caro leitor, que nem tudo é perfeito no nosso modelo, mas a certeza de que, mesmo nos momentos mais difíceis, o estado está lá para garantir a dignidade a todos e a cada um de nós, é impagável.