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Brasil, qual é o seu negócio?

Pedro Mendes
Opinião \ sexta-feira, janeiro 20, 2023
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Estes movimentos, que corroem as instituições por dentro, propalando aos sete ventos serem os detentores da voz do povo, não passam, na esmagadora maioria das vezes, de oportunistas.

Cazuza, brilhante cantor brasileiro desaparecido cedo de mais, cantava assim no refrão da sua música Brasil:

Brasil

Mostra tua cara

Quero ver quem paga

Pra gente ficar assim

Brasil

Qual é o teu negócio

O nome do teu sócio

Confia em mim

 

Foi esta a memória musical que me assaltou ao ver o que aconteceu em Brasília no passado dia 8 de janeiro. Cazuza remetia nesta música de protesto para um país a lutar pela democratização, mas, ao mesmo tempo, mergulhado em desigualdade e injustiça, mas remetia também para que o povo “mostrasse a sua cara” e para que se confiasse no povo Brasileiro. Ora, facilmente podemos fazer uma ligação directa entre o final dos anos 80 e os tempos mais recentes do Brasil. Se em 1985 caia a ditadura militar, agora caiu, às mãos democráticas do povo, Bolsonaro, um proto-fascista que governou o Brasil de forma verdadeiramente grotesca nos últimos 4 anos, a diferença é que, contrariamente à vontade popular democrática dos anos 80, há agora um grupo, apesar de tudo reduzido, que quer golpear a escolha dos brasileiros nas urnas. Bem sabemos todos que o movimento bolsonarista é uma cópia mal amanhada do trumpismo americano, mas se isso é verdade, não é menos verdade que o movimento não só não comporta todos aqueles que votaram em Bolsonaro, muitos deles democratas, como é bastante mais orgânico do que os trumpistas americanos. Desde os autocarros pagos por latifundiários sedentos pelo esventrar da Amazónia, até à comida paga por empresários de algumas das maiores empresas brasileiras, tudo isto foi uma encenação fomentada por actores políticos e económicos para abalar a política brasileira.

Estes casos têm-me feito pensar muito, caro leitor, nos perigos que a extrema-direita populista representa para as democracias. Estes movimentos, que corroem as instituições por dentro, propalando aos sete ventos serem os detentores da voz do povo, não passam, na esmagadora maioria das vezes, de oportunistas que sabem perfeitamente o que é que as pessoas querem ouvir, mas que não têm absolutamente nenhuma solução para os problemas complexos que as sociedades enfrentam. Se queríamos maior prova tanto da sua boçalidade, como da sua completa incapacidade de resolver os problemas das pessoas, olhemos para trás para aquilo que foram os mandatos tanto de Trump como de Bolsonaro, e veremos que o único resultado que tiveram foi o acentuar da divisão das suas sociedades, sem nunca resolver os problemas que a sociedade enfrenta, muitas vezes até agravando-os, como se pode ver na criminosa gestão da pandemia da CoVid-19 que ambos tiveram. Mas há mais: aqueles que se apelidam como a voz do povo e que prometeram que os iam livrar dos “outro”, dos “políticos corruptos” e “defensores apenas dos seus interesses”, foram aqueles que, mal chegados ao poder, começaram o saque, como confirmam os mais variados casos de corrupção de Trump, ou as dezenas de casas compradas por Bolsonaro e pela sua família com dinheiro vivo. Não, caro leitor, eles não são a solução para os problemas do mundo. Pelo contrário, agravam muitos dos problemas que a sociedade enfrenta, e colocam cidadãos contra cidadãos, numa tentativa arrojada mas desesperada de dividir para reinar. Da nossa parte, dos democratas, temos de fazer tudo para não os deixar vencer.

Quanto ao Brasil, que enfrentará num futuro próximo grandes desafios, que não faltem as forças aos democratas. A sua vitória será também nossa.