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Os “Berrões” do Castro de Sabroso

António Freitas
Opinião \ sexta-feira, janeiro 19, 2024
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Este tipo de esculturas poderia estar associado a um espaço específico para atividades rituais e sagradas, verdadeiros santuários, grutas e promontórios, ou mesmo demarcando os acessos a estes locais.

As esculturas representativas de uma cabeça e focinho de um suíno, juntamente com uma outra escultura de uma cabeça animal, serão dentro de poucos dias integradas na exposição permanente, visitável no Museu da Cultura Castreja, em Briteiros São Salvador. A primeira, representa um porco doméstico pela ausência de presas, a segunda, pode representar também um suíno, como também uma escultura de uma espécie bovina.

As peças que irão agora integrar a exposição do Museu, chegaram diretamente da exposição temporária “Redescobrindo o Castro de Sabroso”, que esteve patente no Museu da Sociedade Martins Sarmento, em Guimarães, nos meses de julho a agosto de 2023, e onde estas esculturas zoomórficas estiveram em destaque.

Descobertas em momentos diferentes, uma no ano de 1877, nas escavações realizadas por Francisco Martins Sarmento no Castro de Sabroso e outra no ano de 2014, encontrada ocasionalmente e recolhida em 2021, pelos técnicos da Sociedade Martins Sarmento, estes vestígios fazem parte dos elementos que foram sendo descobertos neste enigmático sítio arqueológico e que podem ajudar a traduzir parte de uma sucessão de crenças e culturas de outros tempos, do povoado que ali habitou, fundado entre os séculos V e III antes da nossa era.

 

Escultura de possível cabeça de suíno ou bovino no Museu da Cultura Castreja © Sociedade Martins Sarmento

Escultura de possível cabeça de suíno ou bovino no Museu da Cultura Castreja © Sociedade Martins Sarmento

 

A presença e produção deste tipo de esculturas, que costumam ser designadas pelo nome popular de “Berrões”, existentes em alguns povoados da Idade do ferro do nosso território, mas sobretudo em sítios arqueológicos em Trás-os-Montes e no interior de Espanha, mais pontualmente na Galiza, não são únicas, existindo vários exemplares destas representações animais, podendo estar associadas a divindades de carácter animista, sacralizadas e exaltadas neste mesmo período.

Este tipo de esculturas poderia, no entanto, estar associado a um espaço específico para atividades rituais e sagradas, verdadeiros santuários, grutas e promontórios, ou mesmo demarcando os acessos a estes locais, assim como em momentos fúnebres, adotando na época uma elevada importância e nos nossos dias aumentando a relevância dos locais onde são descobertas.

Sabemos hoje, através das fontes que chegaram até aos nossos dias e através daquilo que os vestígios arqueológicos nos indicam, que eram vários os deuses e deusas que faziam parte do culto dos povos proto-históricos e ao qual estes recorriam para proteção agrícola, da casa, na fertilidade ou até mesmo na cura de doenças.

Esse “contrato” que se estabelecia, teria de ser acompanhado de algo importante, uma oferenda talvez, e aqui se poderiam inseriam estas esculturas, assim como comida, cerimónias ou até mesmo um sacrifício de animais. Estes eram criados por estes povos no interior do povoado e fundamentais para a sua subsistência, oferecidos nesses momentos pelo bem comum dos povos.

Com isto, fica aqui mais um bom motivo para visitar nos próximos dias o Museu da Cultura Castreja.