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Acordos de Sexta-Feira Santa em perigo, ou o Reino Unido a desagregar-se?

Pedro Mendes
Opinião \ quinta-feira, março 11, 2021
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Numa altura em que esta questão parecia adormecida, eis que surgem movimentações que podem colocar em causa não só o acordo, mas essencialmente a paz que se tem vivido nos últimos 20 anos.

Os acordos de Sexta-Feira Santa, assinados em 1998 entre os governos do Reino Unido e da Irlanda, com o apoio da esmagadora maioria dos partidos da Irlanda do Norte, puseram fim a décadas de violência entre nacionalistas e unionistas. Estes acordos, ractificados em maio de 1998, foram o culminar de negociações extremamente complexas e resultaram numa paz ténue, mas que se tem revelado relativamente duradoura e com poucos incidentes.

Ora, numa altura em que esta questão parecia adormecida, eis que surgem movimentações que podem colocar em causa não só o acordo, mas essencialmente a paz que se tem vivido nos últimos 20 anos. E porque surgem então estas movimentações? Estas movimentações surgem agora porque, com a saída do Reino Unido da União Europeia, o famoso Brexit, passamos a ter na ilha da Irlanda uma parte da ilha, a República da Irlanda, que faz parte da UE, e outra parte da ilha, a Irlanda do Norte, que não faz. Ora, como este era um problema que saltava já à vista aquando das negociações do Brexit, aquilo que UE e Reino Unido fizeram, imprudentemente, foi desenhar uma mistela de normas a que chamaram protocolo para evitar a criação de uma fronteira física, da qual nenhuma das partes quer ficar responsável, mesmo que as suas acções, seja a saída da UE por parte do Reino Unido, seja a aparente inflexibilidade nas negociações por parte da UE, sejam as responsáveis pelo impasse.

No momento em que vos escrevo, caros leitores, há já sinais preocupantes de que a situação poderá escalar, sendo o maior deles a “retirada” de apoio dos grupos paramilitares (Loyalist Communities Council) ao acordo de sexta-feira Santa, plasmado numa carta enviada a Boris Johnson, onde apesar de ter sido frisado que a oposição unionista ao protocolo deverá ser “pacífica e democrática”, foi também sublinhado que o Primeiro Ministro Britânico não deve “subestimar a força do sentimento dos unionistas” em relação a este assunto, sublinhando que se Boris Johnson e a UE não estão preparados para honrar na íntegra os acordos de sexta-feira santa, então serão eles (Boris Johnson e a UE) os responsáveis pela destruição dos acordos. Palavras fortes, que culminaram com a retirada do apoio aos acordos de 1998, e que deixam no ar um ambiente pesado a lembrar tempos sombrios do conflito da Irlanda do Norte.

Entretanto, nos Estados Unidos, onde existe uma base forte de apoio ao Sinn Féin, braço político do IRA, começaram já também a surgir movimentações no sentido de reunir apoios para a realização de um referendo para a reunificação da Irlanda, com vários anúncios a serem colocados em jornais de referência como o New York Times ou o Washington Post. A tudo isto se junta a pouco escondida vontade da Escócia de se separar do Reino Unido e de juntar-se à União Europeia.

Veremos as cenas dos próximos capítulos e esperemos que todos os actores tenham a sensatez suficiente para perceber que pior do que qualquer compromisso político pouco desejável ou que cause dano nas suas reputações, seria, claramente, o retorno da violência à Irlanda do Norte, ressuscitando fantasmas que demoraram décadas a exorcizar e reabrindo feridas que julgávamos estarem sanadas.