13 julho 2024 \ Caldas das Taipas
tempo
18 ºC
pesquisa

A Pedra Cavalgar, um monumento geológico

António Freitas
Opinião \ terça-feira, junho 18, 2024
© Direitos reservados
O incidente desagradável de duas mulheres… que por mais d`um quarto d`hora vieram a grasnar contra os ricos que quanto mais tinham mais queriam, etc., aguou-me um pouco a gloria de archeologo…

Corria o ano de 1879, quando a Camara Municipal de Guimarães lançava uma nova divisão e arrematação de parte dos baldios pertencentes ao Monte de São Romão, onde se localizam as ruínas arqueológicas da Citânia de Briteiros. Francisco Martins Sarmento, que estudava e realizava escavações arqueológicas no local desde o ano de 1874, não tendo ficado satisfeito com a primeira divisão dos terrenos, procurava adquirir mais algumas parcelas destes, pois dizia que na primeira divisão “Ficou de fora da medição a linha das fortificações, em recta de Requeixo a S. Simão”, que considerava essenciais para o estudo que então levava a cabo.

Naquela época, adquirir parcelas de monte não era uma tarefa fácil. Estes locais, frequentemente utilizados pelos povos, para conseguirem as lenhas, o tojo ou as giestas, eram essenciais para o predominante modelo de vida agrícola dos povoados em volta.

“O incidente desagradável de duas mulheres… que por mais d`um quarto d`hora vieram a grasnar contra os ricos que quanto mais tinham mais queriam, etc., aguou-me um pouco a gloria de archeologo…”

Não perdendo, no entanto, a esperança de adquirir as respetivas parcelas de terreno correspondentes a esses locais, por neles se conservarem algumas ruínas arqueológicas, participa juntamente com outros proprietários privados nesta nova divisão promovida pela Camara Municipal, adquirindo três novas glebas de terra, num total de 38.852 metros quadrados.

“Na medição incluíram-se os morros desde a porta do Carvalho até à crista do monte e de norte a sul pega n`este mesmo cume e vai até às ruas quasi em frente do Paço, continuando a direito até à porta do Carvalho; apanha pois toda a chã.”

Na concepção de Francisco Martins Sarmento, o principal objetivo nunca foi ser proprietário dos terrenos, mas sabia que para o estudo e interpretação do local que vinha a realizar, era fundamental a sua posse.

Numa das novas parcelas adquiridas no ano de 1879, encontrava-se um curioso penedo que lá permanece até aos nossos dias. Com uma forma esferoidal, diretamente sobre um afloramento rochoso, era conhecido entre o povo por Pedra Cavalgar. De impressionantes dimensões, apresentava 10 metros a norte, 11 metros a nascente, 7 metros a sul e 13 metros a poente, segundo constava na verba de aforamento, ficando ainda Sarmento com uma faixa de 10 metros de terreno à volta desta pedra, que mais tarde serviram para a sua delimitação.


Pedra Cavalgar - Arquivo SMS

Certamente que para Sarmento, perceber que esta pedra não teve influência humana não deveria ter sido difícil, mas a sua monumentalidade e caricata posição poderia, no entanto, ter sido associada aos designados “penedos baloiçantes”, interessantes estruturas megalíticas colocadas normalmente em posição instável, conseguindo-se o seu equilíbrio por ação humana, não sendo o caso da Pedra Cavalgar.

Ao longo dos anos, a Pedra Cavalgar foi despertando admiração, a todos que por ela passavam, com a sua monumentalidade natural, sendo no ano de 1948 balizado o local onde a mesma se encontra, pela Direção da Sociedade Martins Sarmento, a fim de se sinalizar e salvaguardar o local que outrora pertencera a Francisco Martins Sarmento.

A Pedra Cavalgar de Sarmento, pode ainda nos dias de hoje ser vista e apreciada a sua monumentalidade natural, por todos os amantes de caminhadas na natureza e merece ser preservada para a posterioridade.

Pedra Cavalgar - imagem atual