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Pedro Mendes
Opinião \ quinta-feira, setembro 23, 2021
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Nas primeiras horas estava tudo muito turvo. Não se sabia o que tinha acontecido. Quem tinha feito aquilo. Porquê.

Num início de tarde como tantos outros, estava eu a preparar-me para entrar na sala de aula, quando alguém me diz que um avião tinha embatido contra um prédio em Nova Iorque. Achei estranho. Os aviões civis não sobrevoam Nova Iorque. Pedi à professora para me deixar dar uma corrida ao bar da escola para ver o que se passava. Tinha acabado de começar a emissão na SIC, com, salvo erro, o Paulo Camacho. Vi, em directo, o embate do segundo avião. Julgava ser uma repetição. Apenas passados largos segundos percebi, como os jornalistas que acompanhavam a emissão, que aquilo era outro avião a embater noutra torre.

Durante essa tarde já só voltei às aulas duas horas e meia depois.

Eu era, na altura, um jovem cheio de ideais, e com uma dose cavalar de anti-imperialismo, e lembro-me de, ainda sem ter noção da magnitude do que estava a acontecer, a minha primeira reacção ter sido de um misto de horror e uma espécie de “isto era um acidente à espera para acontecer”. Estávamos ainda na ressaca do fim da história preconizado por Fukuyama e na era de pleno domínio Norte-Americano, e estava no auge um anti-americanismo quase primário alimentado por erros crassos de política externa norte-americana nos 15 anos anteriores, era, portanto, normal, principalmente entre os mais jovens. Com o avançar da tarde, tudo desapareceu e ficou apenas o horror e uma espécie de esmagamento pela brutalidade do que tinha acontecido.

As imagens do segundo embate e da queda das Torres são verdadeiramente avassaladoras.

Nas primeiras horas estava tudo muito turvo. Não se sabia o que tinha acontecido. Quem tinha feito aquilo. Porquê. Temos de nos lembrar que em 2001 as comunicações não eram o que são hoje. Estávamos ainda na madrugada da internet, e, mesmo que ela já estivesse a ganhar terreno no nosso dia a dia, não estava assim tão disseminada quanto isso, quanto mais na palma da mão de cada um de nós, como hoje está. A hipótese de um atentado terrorista começa a ser veiculada logo após o embate do segundo avião. Não podia ser um acidente. Só ao final da tarde, na emissão da SIC Notícias, à época o único canal de notícias do país, é que começou a surgir a informação de uma ligação aos jihadistas islâmicos, e, salvo erro, só no final dessa noite o nome de Bin Laden começou a soar nas redacções.

Depois, foram dias em loop. O assunto tomou de assalto os jornais e telejornais.

Foi isto o meu 11 de Setembro de 2001.

Passados 20 anos, o horror mantém-se, e alguns erros foram repetidos. Na ressaca do 11 de Setembro, nasceram duas guerras que desestabilizaram por completo o Médio Oriente e a Ásia Central. Só nas guerras do Afeganistão e do Iraque morreram mais de 400 mil pessoas. A acrescer a isso, a maior crise migratória desde a 2.ª Guerra Mundial irrompeu Europa dentro. A Al Qaeda deu lugar ao Estado Islâmico, que conseguiu a proeza de, no nas barbas das potências mundiais, conquistar um território maior do que a Península Ibérica, propagando o mal e servindo o horror. 10 dias depois da retirada final das tropas americanas do Afeganistão, os Talibãs tomaram Cabul, deixando o país exactamente no mesmo ponto onde estava a 11 de Setembro de 2001.

Fechou-se um ciclo, mas fica a sensação de que nada mudou.

Não podia terminar este artigo, mais sentimental e factual do que de reflexão, sem lhe dizer, caro leitor, que muito mais do que o que foi ou poderia ter sido feito, importa que os países, em particular no ocidente, que representam os valores de liberdade e democracia nos quais me revejo, percebam que só com uma cooperação mundial multilateral no âmbito do sistema internacional, ou seja, no quadro da ONU, é que podemos, efectivamente, tornar o mundo um local mais seguro e capaz de responder aos enormes desafios que o futuro nos apresenta e aos quais vamos ter de responder como um todo.

Nunca o diálogo fez tanto sentido.