Thermos: poetizar a terra como forma de pensar o humano na EB 2 e 3
A terra e a paisagem podem ser lugares para encontrar perspetivas até então desconhecidas sobre nós mesmos, para encontrar o outro e para evocar aqueles que continuam vivos na memória, embora já não na materialidade, como Francisco Coelho Neves faz no poema “Ria de Aveiro”, com referência às cinzas do seu avô lá espalhadas, lido diante da plateia do Auditório Mário Rodrigues, na Escola EB 2 e 3 das Taipas.
"O exercício da escrita pode não ser diário, mas é feito com frequência. Tenho uma quantidade enorme de poemas a falar dos meus avós (…). E por vezes um poeta arranja desculpas para falar de si mesmo quando está a falar de outras coisas. No livro “Microfábulas” estou a falar de mim quando estou a falar da natureza. Penso em como não faço o suficiente para que o mundo se regenere. Temos mesmo de pensar nisto de forma muito séria”, disse, em jeito de aviso para a questão da ecologia, durante a conferência “A terra e a paisagem na literatura”, moderada por Pompeu Martins, no âmbito da segunda edição do Thermos – Encontros Literários de Caldas das Taipas.
Poeta, ensaísta e crítica literária, Ana Marques Gastão salienta que a relação estabelecida entre humano e natureza é uma forma de “relação entre o eu e o outro, entre dois seres, dois seres na existência" e descreveu a poesia como “um espaço de liberdade, de pensamento e de intervenção, mesmo que seja ao nível existencial mais simples”.
"Um poeta é um apátrida, um cidadão do mundo. Poderia ter nascido num outro lugar. O que ele expressa depende da vida de cada um, da autobiografia. O Torga, por exemplo, é marcado por aquela aridez, por aquela pedra, por aquela força”, disse, numa referência ao escritor nascido em Trás-os-Montes.
Após responderem a várias questões dos alunos, os escritores deixaram conselhos para o caso de os presentes quererem escrever e publicar no futuro. "Leiam. Não escrevemos sozinhos. Somos um edifício com um passado literário", disse Ana Marques Gastão. Já Francisco Coelho Neves pediu que “não confiem em escritores que dizem que não precisam de ler para escrever” e sugeriu que “observem e apontem coisas”. “Esse exercício de registo é muito importante, dando ou não para publicar algo”.