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Thermos: diversidade do mundo está nas múltiplas configurações das línguas

Tiago Dias
Cultura \ sexta-feira, maio 08, 2026
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Na Escola Secundária de Caldas das Taipas, Filipa Vera Jardim, Fernando Pinto do Amaral e Rita Pupo discutiram o alcance e a variedade das línguas como reflexo de um mundo que não é homogeneizado.

Cumprida a sessão da manhã, sobre o papel da paisagem e da terra na literatura, o Thermos mudou-se para a Escola Secundária de Caldas das Taipas para uma sessão onde a Conversa de Agulheta, com a chancela do poeta e professor de literatura Fernando Pinto do Amaral, a Conversa de Vichy, entregue a Rita Pupo, comunicadora e programadora cultural interessada na ligação entre poesia e psicoterapia, e a Conversa de Vapor, a cargo de Filipa Vera Jardim, fundiram-se e fluíram para uma sessão onde emergiu a ideia de que as múltiplas configurações da linguagem refletem perspetivas variadas do mundo e das culturas que o integram.

Conhecedora do árabe, na qual o Alcorão foi escrito, e do hebraico, no qual a Tora judaica foi escrita, Filipa Vera Jardim abordou as diferenças dessas línguas para o grego e o latim para apontar as diferenças nas perspetivas do mundo entre um cristão, um muçulmano e um judeu.

“Quando estou com uma pessoa hebraica, não lhe pergunto como está? O verbo estar ou ser não existe. Pergunto o que aconteceu, porque a realidade para eles está no que aconteceu, na forma relacional da sociedade. No islamismo e no judaísmo, Deus é uma vivência diária na vida das pessoas, ao contrário de nós, em que, mesmo os crentes, vão à missa uma vez por semana e depois não pensam mais nisso. O Deus deles não é de substância, nem de essência, mas é de revelação e de continuidade”, descreveu.

A autora alertou, por isso, que “um mundo global” onde os vários povos possam coabitar não “pode ser um mundo em que um padrão é aceite e outro não”, porque, pelo planeta fora, há pessoas que “não só pensam e vivem de outra maneira” em relação ao que é norma, por exemplo, em Portugal, como a sua estrutura mental de apreensão da realidade é diferente. "Num mundo global em que queremos ter acesso a tudo padronizado, atenção aos padrões, porque os nossos padrões não são os padrões do outro", salientou.

Numa sessão em que leu dois dos seus poemas – “Apócrifo lusitano” e “Brincadeira” –, Fernando Pinto do Amaral para a necessidade de “haver biodiversidade” na criação literária e até na individualidade como pessoas. “Temos de nos manter pessoais. Quando não houver figuras, digamos assim, lunáticas e todas as pessoas forem muito iguais e maravilhosas segundo as normas da robótica, ficamos todos iguais e os robôs ficam melhores. Quando chegar essa hora, os robôs ficarão a rever os trabalhos uns dos outros. E nós, o que faremos?”, questionou, pendido à plateia, sobretudo composta por alunos do curso de Ciências e Tecnologias, para “não se deixar homogeneizar”.

Já Rita Pupo usou a metáfora dos pulmões, órgão que, em média, os humanos só utilizam 20% da capacidade, para vincar que a linguagem é “muito mais do que a gramática” e do que “a linguagem funcional” do dia a dia. "A linguagem poética tem a ver como nos deixamos contaminar para expressar aquilo que sentimos. As possibilidades de configuração e reconfiguração do texto são múltiplas", disse.

Pediu ainda aos presentes que se mantenham abertos à diferença num tempo de crescente tendência para a rejeitar prontamente. "O que conta não é o que estudamos nas universidades. É a disponibilidade para se deixarem contagiar positivamente ou criativamente. A diferença provoca duas reações: rejeição ou curiosidade. Infelizmente, vemos uma tendência crescente para a rejeição. Mantenham a curiosidade e a abertura ao diferente".