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"Nunca fez sentido parar". Os Banhos Velhos ajudaram a "pôr a vila no mapa"

Pedro C. Esteves
Cultura \ quinta-feira, junho 10, 2021
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Tertúlia juntou os três programadores culturais que ajudaram a reavivar os Banhos Velhos. O primeiro exemplo de "descentralização cultural" do concelho é prova de "sustentabilidade".

Era coisa de se ver: uma banda rock ia tocar num antigo balneário termal de origem romana. O espaço, à partida pouco convidativo para o acontecimento, aguçou curiosidades, levantou dúvidas, inquietou. Resultado? Os Linda Martini em palco, a tocar para centenas de pessoas na vila de Caldas das Taipas. O concerto data de setembro de 2010, altura da primeira mostra dos Banhos Velhos, que transformou aquele espaço emblemático num autêntico polo cultural. A partir daí, cultura e Banhos Velhos tornaram-se indissociáveis no imaginário dos taipenses – e não só.

A partir desse verão de 2010, “nunca fez sentido parar”. 11 anos depois – dez de atividade cultural –, três dos obreiros sentaram-se para conversar e radiografar uma década a trazer gente à vila pela mão da cultura. Aconteceu na noite de quarta-feira, no Largo das Termas: José Manuel Gomes, atual programador cultural, Paulo Dumas e Pedro Conde traçaram a trajetória – com a ajuda da moderação de Ivo Rainha, do Freepass – de um projeto com muita “razão de existir”: “Isso é incontestável”, referiu Paulo Dumas.

É que quando falamos em Banhos Velhos, falamos no primeiro projeto de descentralização cultural do concelho, que “colocou no mapa” a vila termal. Apesar de festivais como o Rock in Taipas e o Barco Rock Fest serem prova que havia vitalidade no panorama cultural a norte, os “Banhos” trouxeram “regularidade”, argumentou Pedro Conde. E se primeiro houve quem estranhasse, a ideia entranhou. Prova disso? Já não só os taipenses que procuram refúgio nas temporadas culturais; de fora – Braga, Famalicão, Porto, Viana do Castelo – também chegam para ver o que a cultura pode fazer por uma comunidade. “Mas nunca viria esse público, se já não houvesse um público fiel por cá”, avisou o atual programador cultural, José Manuel Gomes.

Essa “fidelização”, fenómeno que foi crescendo com o passar das temporadas, também é sintomático de uma ligeira afinação da programação. Trabalho que começou com Paulo Dumas a contactar, ainda nos primeiros tempos do festival cultural sazonal, associações locais e escolas. A comunidade local foi fulcral para “reerguer” os Banhos Velhos e agora a programação reflete isso: há tertúlias, noite de fados e este ano só não há o tradicional teatro por constrangimentos causados pela pandemia.

Mais do que um espaço, uma marca

O que começou por ser um evento local, rapidamente extravasou os limites concelhios e estabeleceu-se. “Os Banhos Velhos já não tem que provar nada, é um projecto super consolidado nas Taipas e em Guimarães”, frisou José Manuel Gomes. Prova da força deste polo cultural foi ver mais de 500 pessoas apeadas no antigo balneário termal para ver os Sensible Soccers em 2016 (que também tocam na edição deste ano). “A nível de aceitação, foi um ponto em que senti que isto nunca mais ia parar. Foi ali que vi muita gente de fora, gente nova que a partir daí começou a vir. Seria a noite que guardo com maior felicidade”, diz o programa cultural.

Muitas das memórias partilhadas pelos programadores também surgiram em tela, já que a conversa foi antecedida pela mostra do documentário realizada pela GRUA sobre uma década de dedicação à cultura (ver em baixo). Daqui a dez anos, “nada deixaria mais feliz” Pedro Conde do que voltar a uma tertúlia e lembrar o processo árduo de “afirmação dos Banhos Velhos”. Exemplo de sustentabilidade, quem sabe se o Largo das Termas, por junho de 2030, não seja anfitrião de uma outra tertúlia: “Banhos Velhos – 20 anos de programação cultural”.

Filme de Hilário Saldanha e Ricardo Martins