Há sempre tempo para descobrir novos mundos nas pontas dos dedos
“Quem é que aqui tem WhatsApp?”, interroga Ana, com voz nítida. As respostas dividem-se, mas os olhares fixam-se na voluntária de 18 anos. As oito alunas posicionam-se junto aos computadores da Comunidade Criativa de Inclusão Digital de Guimarães (CCIDG), à escuta dos próximos grãos de conhecimento que aí vêm. A estudante de Engenharia e Gestão de Sistemas de Informação na Universidade do Minho explica como ir às definições da conversa, como guardar fotografias, como mudar o fundo da aplicação, detendo-se junto da ouvinte mais próxima para comprovar progressos ou tirar dúvidas.
Aos 93 anos, Antónia Esteves é a mais velha do grupo da Braços d’Afetos, associação que funciona como centro de convívio para seniores, em Longos. Com os dedos, acostuma-se ao toque do ecrã, embora nunca tenha aprendido a ler, nem a escrever; já tirou fotografias e viu-se a si mesma num tablet, mas o que mais gosta é de ver gatos. “Tudo o que tiver animais eu gosto”, atira. "Já tirei a minha fotografia, já vi vídeos no Youtube”, prossegue.
A primeira sessão do CCIDG na rua da Murteira, coração da vida comunitária na freguesia, deu-se a 13 de fevereiro, ainda fluía a época chuvosa que se apoderou deste inverno. Mês e meio depois, com o sol da primavera a reluzir, Antónia já deslizou o dedo sobre o Facebook, o Google Maps ou o Google Chat, outra ferramenta de conversação. E ganhou confiança com as voluntárias da Delegação de Guimarães da Cruz Vermelha Portuguesa, ao ponto de as comparar aos 18 netos de quem é orgulhosa avó. “Parece que começou no outro dia, mas já foram cinco vezes. Já somos uma família. Faço de conta que são minhas netas”, confessa.
Ao lado, Ana Oliveira sorri; voluntária da Cruz Vermelha Portuguesa desde 2023, coube-lhe orientar a quinta sessão em Longos, embora essa função rode entre os elementos da equipa. Os conteúdos vão sempre ao encontro das necessidades expressas pelo grupo de utentes na primeira sessão. O crescente à-vontade entre “professoras” e “alunas” faz com que os ganhos daquela atividade ultrapassem a dimensão digital. “Para mim, o mais recompensador é ver os sorrisos nas pessoas. O mais benéfico para quem é mais novo é contactar com pessoas que têm experiências diferentes das nossas. E elas ganham connosco, pelas novas tecnologias, mas também por poderem falar para gente que não veem todos os dias”, descreve.
Momento de aprendizagem na viatura da CCIDG, equipada com tecnologias digitais ©RFX
Criar utilizadores mais prevenidos e próximos de quem está longe
As restantes orientadoras distribuem-se pelas utentes. Acompanham a sua aprendizagem e garantem que nenhuma dúvida fica por esclarecer. São elas Ana Oliveira, Daniela Silva, Cristina Pereira, Martina Stanchi, de Itália, Mara Vermeulen e Meike Diesman, neerlandesas, e Beatriz Freitas, técnica de educação na Cruz Vermelha de Guimarães. Longos é uma das 27 freguesias do concelho de Guimarães até agora contempladas pela CCIDG; como em todos os outros lugares, este grupo da Braços d’Afetos cumpre nove sessões, a começar pela de pré-teste, com os beneficiários a preencherem um questionário sobre hábitos digitais. “Perguntamos se têm smartphone, telemóvel mais antigo de teclas ou se não têm quaisquer ferramentas. Perguntamos também o que já sabem e o que querem aprender. Não faz sentido ensinar coisas sem interesse para eles”, vinca a responsável de 26 anos, mestre em educação de adultos e intervenção comunitária pela Universidade do Minho (UMinho).
Depois de sete momentos em que se aprendem as funcionalidades mais básicas – baixar e aumentar o volume do som de um smartphone ou de um tablet – e outras mais complexas – editar fotografias –, a CCIDG realiza o pós-teste na nona e última sessão. “É um confronto entre aquilo que propuseram para aprender e aquilo que realmente aprenderam. Também tentamos perceber se gostaram das sessões e dos voluntários”, acrescenta.
Este veículo ligeiro equipado com tecnologias digitais percorre as estradas de Guimarães desde 2021. A primeira edição da CCIDG contou com um orçamento de 445 mil euros, financiado em 70% pela iniciativa Portugal Inovação Social, inserida no quadro de referência Portugal 2020, e desenrolou-se até 2024, em centros de dia, centros de convívio ou lares. A segunda edição, financiada em 80% pelo Portugal 2030, também abarca escolas. Além de querer contribuir para a “inclusão social de pessoas vulneráveis ou em risco de infoexclusão”, o projeto também almeja “o envolvimento de jovens, especialmente aqueles em situação de vulnerabilidade, em práticas de voluntariado e participação cívica”, assinala o documento de apresentação do projeto. Até agora, a CCIDG reuniu 52 voluntários e alcançou mais de 2.100 beneficiários.
No que respeita aos idosos, a relação de cada utente com as tecnologias digitais varia mais consoante a retaguarda familiar e a situação económica do que a freguesia de residência, sublinha Beatriz Freitas. Entre os principais benefícios, salienta a aproximação aos elementos da família, pelo uso de mensagens e de videochamadas, e a prevenção de fraudes. “É muito bom eles terem estas ferramentas, mas também perceberem que essas ferramentas também podem ter algum perigo associado”, sublinha a técnica.
“Isto transforma-se no verão. É uma mais-valia para falarem com os filhos lá fora. Todos os dias tento-lhes dar conta das atividades que fazemos, para os filhos verem que estão bem entregues”, Cidália Baptista, Braços d’Afetos
A frequente receção de mensagens associadas a possíveis fraudes é um dos motivos pelos quais Cidália Baptista considera a CCIDG uma “mais-valia” para as 17 utentes da Braços d’Afetos. Como o cuidado de idosos é uma área que a cativa, Cidália reparte o seu tempo de trabalho pela Junta de Freguesia de Longos e pela associação fundada em 2019. Com espaço próprio desde o rescaldo da pandemia de covid-19, o centro de convívio é um lugar para trabalhos manuais em cerâmica, para ginástica ou para ensaiar música, tendo já organizado um grupo para ir cantar a lares do concelho de Guimarães. Realiza ainda uma caminhada solidária em maio para apoiar a luta contra o cancro pediátrico, através da parceria com o Lions Clube de Guimarães.
As pesquisas na Internet e a divulgação na Semana Sénior da Câmara Municipal de Guimarães deram-lhe a conhecer a CCIDG, que agora recebe em Longos. Embora as utentes que estão agora em formação se tenham mostrado “reticentes”, até por duas delas não saberem ler nem escrever”, Cidália Baptista deu-lhes a entender que “a palavra não está proibida” na associação. Cumpridas cinco sessões, fala de uma experiência “muito gratificante”, quer pelo “respeito mútuo” entre jovens e idosas, quer pelas competências digitais que permitem à aproximação aos familiares emigrados. “Isto transforma-se no verão. É uma mais-valia para falarem com os filhos lá fora. Todos os dias tento-lhes dar conta das atividades que fazemos, para os filhos verem que estão bem entregues”, salienta, mostrando-se curiosa para com o outro grupo da Braços d’Afetos que vai contactar com a CCIDG. “Tem gente mais jovem, que lida todos os dias com telemóveis”.
Utentes e equipa da Cruz Vermelha numa sessão da CCIDG em Longos ©RFX
“Falamos sem palavras”
Nas secretárias da viatura, as utentes têm acompanhamento permanente por uma hora. A meio, Geraldina da Silva conta com o apoio de uma das voluntárias. Esclarece dúvidas e recebe indicações. Partilham sorrisos. Mas é difícil trocarem palavras. Geraldina tem 73 anos e vive em Longos. Mara Vermeulen tem 19, é oriunda de Utrecht e estuda enfermagem na Universidade de Avans, no sul dos Países Baixos. Entre as várias sugestões para disciplinas opcionais, escolheu fazer voluntariado em Portugal, entre fevereiro e março. “Volto aos Países Baixos no início de abril. Toda a gente é muito agradável. Na carrinha, a língua é uma barreira difícil, mas habituamo-nos", descreve.
Aprender a comunicar sem falar português é, aliás, a principal aprendizagem que retira da passagem pela Cruz Vermelha Portuguesa. “Falamos sem palavras. Isto pode ajudar-me a ser melhor enfermeira no futuro”, acrescenta.
Ao lado, Geraldina agradece o acompanhamento e o tempo passado com as jovens. Apreciadora de trabalhos manuais, de cantar, mas, sobretudo, de dançar, diz-se agora mais capaz de comunicar com os familiares no Mónaco. “Gostei muito de tudo. Poder mandar uma fotografia minha para os meus filhos e para os meus netos foi o que mais gosto me deu”, diz esta mulher, residente “a dois passos” da Braços d’Afetos, e feliz. A recém-adquirida destreza com o smartphone é mais uma peça nessa plenitude.