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Farfetch, a maior empresa do Avepark, atravessa grave crise

Bruno José Ferreira
Sociedade \ sábado, março 09, 2024
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Primeiro unicórnio português, a Farfetch atravessa uma crise profunda e está num processo de despedimento de milhares de pessoas.

Com sede em Londres, a gigante tecnológica que foi avaliada em mais de mil milhões de euros nasceu no Avepark, onde inaugurou em 2018 aquela que é a principal estrutura do Parque de Ciência e Tecnologia de Guimarães. Entre os despedidos há centenas de vimaranenses, sendo que no Avepark trabalhariam sensivelmente três centenas de pessoas. Vendida aos sul-coreanos Coupang, atravessa um período de indefinição.

 

“Dantesco”. Para quem trabalhou alguns dos últimos anos na Farfetch, é este o adjetivo utilizado para descrever a situação que a empresa atravessa. Em todo o universo da empresa, milhares de pessoas estão a ir para o desemprego, centenas em Guimarães. Fundada em 2008 pelo vimaranense José Neves, para dar corpo a uma ideia germinada na Semana da Moda de Paris, no ano anterior, a Farfetch foi a primeira empresa portuguesa com o estatuto de unicórnio - atingiu um valor de mercado superior a mil milhões de euros.   

A aposta aparentava ser simples: trabalhar as marcas de luxo a nível global através da Internet, uma plataforma e-commerce que prestava serviço às grandes marcas, disponibilizando um stock alargado em parceria com várias lojas físicas e várias marcas. A entrada na Bolsa de Nova Iorque, em setembro de 2018, foi um dos passos de consolidação da empresa que, a partir daí, atraiu ainda mais parcerias de renome a nível global. "Colocar a bandeira portuguesa no New York Stock Exchange (NYSE) era um dos pequenos sonhos que tínhamos e que foi realizado hoje", disse, na altura, José Neves numa entrevista à Agência Lusa. Foi a primeira empresa tecnológica portuguesa no mercado de valores mundial. “Vamos continuar a empregar mais pessoas e a gerar mais emprego”, atirou José Neves.

A pandemia foi uma espécie de ignição para uma empresa que já faturava 280 milhões de dólares por ano. Os confinamentos impulsionaram as compras online, e deu-se um “boom” no crescimento da empresa, de acordo com trabalhadores que falaram ao Reflexo, sobre anonimato. “Correu muito bem para a empresa, a Farfetch destacou-se dos outros e-commerce ao conseguir colocar os produtos online de forma atrativa com estratégias diferentes”, relatam. Depois de entrar em bolsa com ações cotadas em 20 dólares, a empresa que instalou a sede em Londres, apesar de ter a génese no Avepark, viu em fevereiro de 2021 cada título atingir o valor de 73 dólares.

 

Desconfinamento e guerra põem em causa milhares de postos de trabalho

As perspetivas de crescimento da empresa eram uma realidade, assim como o investimento. A empresa chegou a ter 6.700 funcionários, a maioria em Portugal, mas também com presença física no Reino Unido, em Itália e nos Estados Unidos da América, sendo os centros de produção em Portugal, Hong Kong e Brasil e Los Angels. Um dos sinais visíveis de investimento teve lugar em maio de 2018, quando foram inauguradas as novas instalações no Avepark, o Parque de Ciência e Tecnologia de Guimarães, em Barco. Mas o desconfinamento representou uma quebra acentuada no volume de negócios, e os trabalhadores sentiram que “o mercado abrandou” de uma forma geral. “Sentimos as coisas a desacelerar um pouco depois da pandemia. As perspetivas que foram projetadas saíram um pouco ao lado”, referem.

A cotação em bolsa foi caindo, a guerra também não ajudou, e a empresa saiu do mercado russo, onde chegou a ter um escritório que era importante. Até então sólida e com bons resultados, a Farfetch começou a apresentar prejuízos, entrando numa rápida espiral negativa, a uma velocidade até superior à do seu crescimento, com perdas acima de 80% do seu valor. As ações chegaram a estar cotadas em 0,70 dólares, e a empresa viria a sair da bolsa no ano passado, já depois de não ter apresentado os resultados trimestrais.

“Sabíamos que as coisas não estavam bem. O volume de trabalho abrandou muito, mas só nos apercebemos de que as coisas estavam mesmo muito mal, e que alguma coisa de errado estava a acontecer em setembro do último ano”. No verão, foi anunciada a intenção de a Farfetch despedir 17% dos seus funcionários, mas rapidamente esse número disparou para 25%, chegando-se ao tal cenário “dantesco”. Para evitar a falência, a Farfetch foi vendida aos sul-coreanos da Coupang, através da sociedade Athena Topco por 500 milhões de dólares.  José Neves, fundador e CEO da empresa, deixou a Farfetch. Estava previsto manter-se na empresa apesar da venda, mas esse cenário não se verificou, com vários diretores das áreas tecnológicas a demitirem-se em desacordo com o rumo traçado pelos novos proprietários da empresa.

Os cortes podem chegar aos 30% dos trabalhadores em toda a esfera da empresa, cerca de mil pessoas em Portugal. O Reflexo tentou contactar a administração da empresa, para obter esclarecimentos, mas sem sucesso. Recentemente o ministro da economia, António Costa e Silva, disse estar atento à situação da empresa que foi o primeiro unicórnio português. “Estamos a acompanhar com atenção o que se está a passar na Farfetch. Era um dos nossos grandes unicórnios, nas empresas existem altos e baixos. Esperamos que a situação possa ser estabilizada, e a Farfetch possa regressar àquilo que foi antes”, disse António Costa e Silva.

 

“Era uma empresa excelente para trabalhar”   

Num dos últimos relatórios da empresa, divulgado no ano passado, a Farfetch assumia ter 6.728 funcionários, a maior fatia em Portugal (3.342). Com escritórios em Guimarães, Matosinhos, Lisboa e Braga, a unidade de Guimarães teria cerca de 300 funcionários, sendo ainda ponto de referência para vários funcionários que operam remotamente.  Vários funcionários da empresa trabalham nessa realidade a partir de casa, sendo um número considerável dos trabalhadores oriundo de Guimarães; não só os do Avepark, mas também os do polo de Matosinhos. A atravessar um momento delicado, num cenário de negociação com a empresa, os funcionários falam sobre anonimato para salvaguardar a situação. Em cima da mesa, os trabalhadores dispensados têm duas soluções: mútuo acordo com o pagamento de uma indemnização de 30 dias por cada ano de contrato, sem direito a subsídio de desemprego, ou então o pagamento de 14 dias por cada ano de contrato com a possibilidade de auferir subsídio de desemprego, ainda que neste caso tenham de esperar pelo despedimento coletivo.

“Até há bem pouco tempo, a Farfetch era uma empresa excelente para trabalhar”, relatam. “Claro que há sempre a experiência individual de cada um, más experiências relacionadas com o líder de equipa, mas, na generalidade, a empresa tinha bom ambiente e vários benefícios que nos ajudavam no dia-a-dia”, consideram num tom visível de mágoa. “Os próprios escritórios, o ambiente que se criou ao longo dos anos, era para que as pessoas se sentissem felizes no trabalho”, complementam os trabalhadores.

Rebobinando um pouco o filme dos acontecimentos, os funcionários dizem “não sentir qualquer tipo de instabilidade ao longo dos anos”, até setembro do ano passado. “A empresa estava constantemente a investir”, confirmam. “A maior parte das pessoas ia trabalhar diariamente com um sorriso no rosto, contente, porque estava numa empresa promissora, com bom ambiente e na qual foram criadas relações”, desabafam. “Pessoas casaram e constituíram família na Farfetch”, lembra outro funcionário. Um estigma que rapidamente se alterou em que levou a um sentimento atual “terrível”.

 

“Parece que estão a sair números e não pessoas”

Os sorrisos deram lugar à “angústia” e a um “sentimento global de desilusão, tristeza e insegurança”. Habituaram-se a ver, e a estar, numa empresa “líder mundial na área”, que envolve milhões e que foi aumentando os colaboradores. Números. Números que agora não deixam de o ser, mesmo quando estão em causa despedimentos coletivos. “Imagine-se uma empresa sempre ativa, com gente, que, de repente, vê as pessoas a ser dispensadas porque simplesmente são números, não porque fizeram um mau trabalho ou outra qualquer razão”, dizem, não vendo um futuro capaz de devolver a empresa aos tempos áureos.

“A Coupang não está a olhar a quem, a estratégia é de sobrevivência e não de manutenção da qualidade do serviço”, garantem, pelo que, mesmo naqueles que resistiram à razia, o espírito não é o melhor. Sem dados concretos, os trabalhadores com quem o Reflexo falou estimam que a maioria dos trabalhadores sejam oriundos de Guimarães, mesmo no polo de Matosinhos. “Outras pessoas até se mudaram para Guimarães para estarem mais próximas. A empresa era apelativa financeiramente de uma forma geral”, apontam.

“Há um ambiente de muito apoio entre as pessoas que estão a sair. Nas que ficam, sente-se algum desânimo”, atira um dos trabalhadores. “Não é a mesma coisa”, complementa outro. “Estão a melhorar a situação de quem fica, a oferecer pacotes de compensação para tentar que as pessoas não saiam, mas está a provocar um grande abalo na cultura da empresa. Foram estas pessoas que foram criando essa cultura, esses valores”, conclui. Os trabalhadores da Farfetch foram convocados por e-mail para uma reunião “obrigatória”, na qual foi comunicado a intenção da empresa reduzir drasticamente os recursos humanos.

“Recebemos sempre a tempo e horas”, garantem, sendo que foi em dezembro que tiveram o último contacto, via Zoom, com o fundador da empresa. “O José Neves disse-nos, nessa altura, que tinha uma solução para a empresa, e foi aí que ficámos a saber que a Coupang ia comprar a Farfetch”. 

De resto, só através da imprensa vão sabendo do estado de coisas, como a saída do fundador empresa e de outros administradores. O Sindicato dos Trabalhadores do Comércio, Escritórios e Serviços de Portugal olha com preocupação para a situação que se tem vivido no primeiro unicórnio português. Ainda assim, está a acompanhar por fora esta realidade, sem qualquer interferência em todo o processo, uma vez que não foi ainda contactado pelos trabalhadores da empresa.

Mesmo que nunca imaginassem um “cenário destes nem nos piores pesadelos”, os funcionários da empresa com quem o Reflexo falou refletem de forma lúcida que “o que está a acontecer é o reflexo de a empresa tentar durante muito tempo manter a operação com o tamanho que tinha quando não era necessário”. Olham agora para trás e consideram que a situação “era inevitável”. “Tínhamos trabalhadores a mais e o negócio não se redimensionou”, concluem.

[ndr] artigo originalmente publicado na edição de março do Jornal Reflexo.