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Aos 100 anos, João Felgueiras é exemplo de “fé e convicção” transgeracional

Tiago Dias
Sociedade \ quarta-feira, junho 09, 2021
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Nascido nas Taipas a 09 de junho de 1921, o jesuíta apoiou a independência timorense, incentivou e continua bem de saúde. Quem o conhece vê nele um testemunho de “como viver para o outro”.

“Todos os médicos perguntam-me quem é que, à noite, o acompanha para a casa de banho. Ninguém o acompanha; ele levanta-se da cama, vai sozinho e volta sozinho. Toma banho sozinho; a gente só prepara a água e a roupa”, diz Rosalina ao Reflexo, a partir de Díli, Timor-Leste. O homem a quem se refere é precisamente o padre João Felgueiras, que comemora nesta quarta-feira um século de vida.

A vida deste missionário reparte-se, literalmente e simbolicamente, em duas metades: a portuguesa, nos primeiros 50 anos, e a timorense, a partir de 1971. A meio mundo de distância, o sacerdote nascido na Casa da Seara apoiou a população na bem sucedida luta pela independência durante ocupação indonésia, desde 1975 até 2002, e dinamizou a educação da comunidade.

Nas reminiscências que guarda dos tempos de criança, Rosalina ainda se lembra de ver o padre trabalhar com jovens e seminaristas, um deles seu irmão. Sem saber que se iria tornar “filha, neta, acompanhante, enfermeira” de João Felgueiras, ia saudá-lo com o resto da comunidade em que vivia. “Não liguei muito, porque era uma criança de sete anos. Fui saudá-lo apenas por ser o vice-reitor na altura. Nem sabia que era padre João. Pensava que Reitor era o nome dele”, ri-se.

Confrontada com a morte dos pais após a ocupação indonésia – o pai morreu na prisão -, Rosalina frequentou o Externato de São José, que chegou a ser a única escola do país em língua portuguesa após 1975, e, no final da década de 80, começou a trabalhar mais de perto com João Felgueiras, numa altura em que o padre já trabalhava clandestinamente para apoiar a resistência timorense, a par do também jesuíta José Alves Martins.

O território colheu os frutos desse labor a 20 de maio de 2002, com a confirmação da independência, e João Felgueiras virou a partir daí o foco para a educação dos jovens, ora incentivando-os a estudar, ora insistindo na criação de “uma escola com qualidade”, descreve Rosalina. “Ele sempre disse que os timorenses são inteligentes e precisam de uma escola de qualidade. Ele sonhou sempre ter uma escola de raiz, desde a pré-escola até à universidade. Ainda não chegámos: estamos desde a pré-escola até ao 12.º ano”, detalha.

O padre taipense promoveu a importância da formação até aos 97 anos, deixando aos poucos esse trabalho desde então. A memória, porém, “continua uma enciclopédia”, assegura Rosalina. O maior problema é mesmo a perda da audição. “Ouve um pouco mal. E o problema da audição causa algumas perturbações na cabeça. Vai-se queixando disso, mas, de resto, anda muito bem. E conhece as pessoas”, descreve.

Ao longo dos anos, o povo foi visitando o padre Felgueiras, num ritual que só esmoreceu “por causa da pandemia”. Os habitantes de Timor-Leste olham para ele “como um avô, como um pai, como um educador”. “A gente pode dizer que é uma pessoa perfeita, embora perfeito, perfeito só Jesus Cristo. É uma pessoa impressionante, um grande exemplo de vida”, reitera a irmã jesuíta.

 

 

“Intransigência perante as pressões”

Quem também o descreve como “exemplo de vida, de fé, de solidariedade, de ajuda e de convicção” é o sobrinho Luís Felgueiras, em conversa com o Reflexo. Hoje procurador no Tribunal da Relação de Guimarães, Luís tinha 17 anos quando o tio, homem que sempre “gostou de iniciativas, de desafios e de abordar coisas novas”, partiu para Timor. Não se recorda exatamente de o ver partir, até porque tinha de “fazer uma preparação com os seus superiores em Lisboa” para definir quais as “orientações e os objetivos” da missão que se avizinhava.

Mas sabe que João Felgueiras pisou pela primeira vez solo timorense a 21 de janeiro de 1971, iniciando uma etapa que o iria transformar para sempre. Até então, o padre nascido nas Taipas estivera quase sempre em Portugal, nas casas jesuítas de Santo Tirso, de Braga ou de Cernache, perto de Coimbra, trabalhando sobretudo na educação e formação de jovens. “Esteve normalmente ligado a iniciativas de contacto com a juventude: promovia acampamentos regularmente, por exemplo”, descreve Luís Felgueiras.

Enquanto pessoa que “procura ver sempre o lado bom das coisas”, o tio João abraçou a ideia de Timor com “grande entusiasmo”. Para a família, a partida foi “surpreendente”, mas a expetativa era a de que ele faria “um bom trabalho a meio mundo de distância”.

Até à invasão indonésia que, a 07 de dezembro de 1975, “mudou radicalmente” o dia a dia daquele território, João Felgueiras dedicou-se à educação dos jovens, “recolhendo donativos e incentivando aqueles que pareciam mais capazes nos estudos”, descreve o sobrinho. A partir da invasão, com as subsequentes ondas de violência, a missão foi sobretudo outra: ajudar a população de todas as formas possíveis e mais algumas. “O meu tio e o padre José Alves Martins estiveram sempre do lado dos timorenses. Tanto um como outro sempre tiveram uma atitude de grande firmeza em relação ao opressor indonésio”, reitera.

A maioria da população opunha-se à ocupação do vizinho, e os padres jesuítas tentavam “proteger e abrigar aqueles que, pela calada da noite, procuravam comida, medicamentes ou apenas umas horas de sono”, ao mesmo tempo que “tinham de manter o seminário a funcionar”. Em certos períodos, como no período que se seguiu ao referendo que legitimou a independência, em 1999, já com 78 anos, João Felgueiras teve mesmo de se refugiar nas montanhas.

Assim sendo, a comunicação com a família escasseava: entre os muitos períodos em que estava incomunicável, o jesuíta “mandava uma carinha a contar as tragédias” de Timor ou ligava a partir de Jacarta, quando era autorizado a deslocar-se à capital de um país que o “queria ver pelas costas”. “Estivemos sem notícias dele umas semanas. Lembro-me que, a um domingo qualquer, estávamos num evento familiar. Ainda era de manhã e já tinha um telemóvel. Liguei e ele atendeu, mas disse que não podia falar. Estava vivo, de saúde. Foi um grande alívio para todos”, recorda Luís Felgueiras.

As esperas, por vezes longas, a que sujeitou a família não diminuiu o exemplo que ainda hoje lega à família; bem pelo contrário. “Tem sido um exemplo extraordinário de fé, de dedicação a uma série de causas, principalmente a timorense, e de intransigência perante as pressões de todo o tipo que foi sofrendo, até porque nem todos os membros do clero estavam distantes do forte poder indonésio”, sublinha.

 

 

Cartas para preservar o legado do tio em Timor… ou a memória de Timor na família

João Felgueiras é o mais novo de um lote de irmãos, que incluía um outro padre, José Maria, missionário do Espírito Santo que esteve em Angola e em Espanha, e Maria Leonor é a mais jovem dos sobrinhos-netos do jesuíta. Com 26 anos, já visitou Timor-Leste por duas vezes. “É um paraíso autêntico e um cantinho do céu. Depois, é um povo muito próprio. Ao mesmo tempo, é muito forte nas tradições e nas crenças, e muito frágil e magoado, que não tem tido uma vida fácil e continua a não ter”, descreve ao Reflexo.

Também é notória a gratidão do povo timorense para com o seu tio-avô e para com o padre Martins. “Quando o veem, as pessoas vão sempre atrás, pedem-lhe a bênção e querem tirar uma fotografia com ele”, recorda Maria Leonor Felgueiras.

João Felgueiras foi bem sucedido no esforço de ter a sua família ligada ao país que o acolheu há meio século. Maria Leonor Felgueiras lembra-se de, em criança, ficar “fascinada” quando ouvia as histórias sobre “um país longínquo”. “Era sempre aquela surpresa de descobrir que a realidade era diferente”, confessa. Desse espanto cresceu uma ligação mais profunda a Timor, alimentada pela escrita.

Como era mais difícil aprender português na ilha do outro lado do mundo, o tio-avô convenceu-a a trocar cartas com crianças locais para perceber o “havia de comum e o que havia de diferente”. Anos depois, conheceu Dívia e Graça, duas das com quem se correspondia através de cartas ainda guardadas algures: uma foi mesmo em Timor, enquanto a outra veio estudar para Portugal.

Essa correspondência é parte do legado de João Felgueiras, homem que, para Maria Leonor, tem a “capacidade de cativar toda e qualquer pessoa de modo muito subtil”, tocando pessoas crentes, mas também não crentes, graças a uma mescla de bondade e entrega. “É claramente uma pessoa muito especial, pelo modo como vive para o outro”, descreve a sobrinha-neta.

 

 

O “homem criativo” sem noção das horas

É no lugar onde João Felgueiras nasceu que vários dos episódios da sua vida se traduzem em imagens: a ordenação como padre, o trabalho em Espanha, os momentos com a família, o contacto com os jovens timorenses e os regressos ocasionais a Portugal. Aos 67 anos, o sobrinho Manuel Felgueiras guarda tudo isso e ainda as lembranças de um homem sobretudo “criativo” que marcava a diferença na família: não jogava à bola, é verdade, mas exibia uma queda para o cinema.

“O tempo passado com ele era muito agradávelEra um bom fotógrafo amador e entrou depois na filmagem de 8mm de Super 8. Fazia pequenos filmes de família, mas com coreografia. Primeiro explicava-nos o que queria que fizéssemos e o efeito que pretendíamos. E nós atuávamos. Ele era o realizador e nós os atores”, diz, enquanto viaja de novo à meninice.

Mas a “faceta doutrinadora” também o acompanhava nas visitas à Casa da Seara. Quando estava em Coimbra, deslocava-se às Taipas em vários fins de semana e celebrava “sempre missa na capela”, mesmo que o horário não fosse o mais rotineiro. “Quando telefonava a partir de Cernache ao meio-dia, dizia que vinha cá almoçar. Chegava cá às 17h00 e ainda ia celebrar com sermão. Trazia sempre algo cativante”.