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Ara de Trajano: homenagem à romanização, testemunho de brincadeiras mil

Tiago Dias
Cultura \ domingo, maio 26, 2024
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Quem ali cresceu há pouco mais de 50 anos dava outro nome ao bloco que ladeia a igreja – o Penedo da Moura – e brincava sem parar. A epígrafe lá gravada é do século II d. C. e saúda o imperador.

Quem ali cresceu há pouco mais de 50 anos dava outro nome ao bloco granítico que ladeia a igreja – o Penedo da Moura – e brincava sem parar. As inscrições ali gravadas mal se viam, mas já lá estavam. Há muito, muito tempo. A epígrafe de 103 ou 104 d. C. saúda o imperador de então, Trajano Augusto, e comprova a identificação da Península Ibérica com a cultura romana. As inscrições posteriores, do século XIX, testemunham a crescente importância das termas. As brincadeiras, essas, perderam‐se. Os tempos são outros e os olhares sobre o património também.

 

Em bruto numas faces, talhado como paralelepípedo noutras, o bloco granítico sobre um recorte de relva entre a igreja matriz, o centro pastoral e a sede dos escuteiros era, há pouco mais de 50 anos, palco de brincadeiras várias: numa delas, atirava‐se pedras para ver se elas permaneciam sobre o que parece a base da rocha. Ali criado, Delfim Alves Duarte testemunha um lugar “mais abandonado”, com arvoredo à volta – ciprestes, por exemplo –, propício para se jogar ao esconde. O grupo ali reunido podia chegar às 15 crianças. “Antigamente pouco se ligava à situação de estar ali um monumento histórico”, descreve o cidadão de Caldas das Taipas, 66 anos.

Essa era a envolvência daquela lápide na segunda metade do século XX. A envolvência das suas origens é praticamente impossível de descrever: foi na transição entre os séculos I e II d. C. que aquele monólito granítico tomou aquela forma e recebeu uma das inscrições que hoje ostenta. Datada de 103 ou 104 d. C, essa inscrição em latim é Monumento Nacional desde 16 de junho de 1910, uma das quatro hoje conhecidas no noroeste peninsular como homenagem a Trajano Augusto.

Mas se esse homem liderou o Império Romano no período de maior extensão, não se pode dizer que aquela peça seja uma ara… tecnicamente. “É um nome que lhe foi atribuído há 100 anos. Aquilo é um monumento, uma pedra esculpida para receber uma inscrição”, sublinha Gonçalo Cruz, arqueólogo da Sociedade Martins Sarmento. “Uma ara é um altar, um elemento de pedra mais pequeno, do tamanho de um móvel, com uma inscrição na parte da frente e, em cima, uma cavidade para ofícios religiosos, libações. Havia aras em templos, aras em casas”, completa.

Convencido de que o monumento reside no seu local original, até porque é “muito difícil de mover”, o investigador crê que o trabalho original teria mais elementos. "Poderia ter ou umas colunas de lado ou um frontão por cima para ter aquele formato de templo”, acrescenta.

Distinta por ser “uma raridade”, a lápide demonstra que o processo de romanização da Península Ibérica foi “concluído com sucesso”, ainda para mais homenageando um dos seus: Trajano Augusto, que dá nome à avenida entre a igreja matriz e as termas, nasceu em 53 d. C., em Itálica, hoje ruínas nos arredores de Sevilha. “Há uma identificação total com a cultura romana”, resume Gonçalo Cruz.

A par do balneário romano, instalado precisamente estão os Banhos Velhos, essa epígrafe levanta a possibilidade de Caldas das Taipas ter sido um vicus romano, uma povoação mais pequena do que uma cidade, mas maior do que as villae, moradias rurais. A sua elaboração estará relacionada com uma construção. “Sugere-se que o monumento se deve a uma determinada obra: pode ser as termas ou pode ser a via que ligava Bracara Augusta e Emerita Augusta [hoje Mérida, em Espanha]. Mas a via não passava ali. Ela seguia para a ponte de Campelos. Se fosse às Taipas, teria de fazer um desvio”, equaciona o arqueólogo.

 

 

“O Penedo da Moura era quase só nosso”. Agora é monumento arranjado

Entre as famílias que ali viviam e as crianças que ali brincavam há pouco mais de meio século, o nome trocado em conversa costumava ser outro. “Era o Penedo da Moura. Falava-se de mouros que estavam ali enterrados e poderiam aparecer. O nome Ara de Trajano aparecia num postal ou noutro, mas não tinha a visibilidade, nem as visitas de hoje”, realça Delfim Alves Duarte. Quando ali se jogava à bola, a parede da igreja matriz virava tabela e a bola nunca saía. “O Penedo da Moura era quase só nosso”, reitera.

Naquele tempo, já mal se liam as letras ali gravadas. Além da original, o penedo passara a albergar em 1818 duas inscrições voltadas a sul, por iniciativa da Câmara Municipal de Guimarães. Uma é a tradução da epígrafe original. A outra menciona a renovação e aumento dos banhos termais para “alívio da humanidade e remédio de rebeldes doenças herpéticas”, da pele, portanto, demonstrando que Caldas das Taipas era procurada para esse fim.

A fruição, tal e qual Delfim a conhecia, perde‐se depois do “arranjo do espaço que circunda a igreja”, ali entre 1990 e 2000, e da construção do centro pastoral; as crianças viraram adultas e muitas partiram. O espaço tornou‐se mais controlado. Estava ali um campo informal de futebol que “era uma maravilha”, verdade, mas os pontapés na bola também causavam danos. “Às vezes, uma bolada dava cabo de uma parede. A parede descascava”, detalha o cidadão, membro da Fábrica da Paróquia por vários anos.

O agrupamento de escuteiros de Caldas das Taipas continua a ser o principal utilizador do espaço, embora menos do que nos primórdios. Membro do Corpo Nacional de Escutas entre 1979 e 1991, Delfim lembra aquele recanto como espaço de treinos e de montagem de tendas. “Era um espaço bom. Havia sombras. Saíamos da sede, era 20 metros à frente”, esclarece.

A crescente sensibilidade para o património, expressa nas recentes obras de conservação ou nas frequentes visitas escolares à Ara de Trajano, e a mudança de hábitos das crianças, com mais oferta para atividades de tempos livres, tornou aquele lugar mais solene, pouco dado a às “brincadeiras de rua”. E está mais bonito assim, apesar das saudades: “Se calhar tenho saudades, porque vivi aquilo como era. Era novo. Mas os tempos são outros. O espaço está bonito, com um monumento tratado e arranjado”.