Um parque onde se aprende a escutar
Existem destinos que são meramente visitados, enquanto outros são verdadeiramente assimilados. O Parque da Imaginação Musical, inaugurado a 8 de outubro no Parque da Cidade de Guimarães, pertence à segunda categoria. Não tem bilheteira, não tem hora de espetáculo, não exige pauta nem talento. Pede apenas uma coisa: que alguém pegue numa baqueta e se atreva a fazer som.
Habituámo-nos a pensar a música como algo que se consome em silêncio, sentado, a uma distância respeitosa do palco ou como algo que se aprende em salas fechadas, com exames, níveis e diplomas. Tudo isso tem o seu lugar, mas deixa de fora a experiência mais antiga que temos acerca do som, que é bater numa coisa só para ouvir o que ela responde.
É essa experiência peculiar que o PIM devolve, pois entre sinos, tubos e xilofones espalhados pelo verde, uma criança descobre que o grave e o agudo vivem lado a lado; um avô reencontra um ritmo que julgava esquecido; dois desconhecidos acertam o compasso sem trocar uma palavra. Não há certo nem errado, mas existe escuta, e há o prazer de ser ouvido. Gostaria de salientar que o concelho e não só, respondeu, pois desde a inauguração, o parque tem tido um movimento espetacular de pessoas a experimentar cada som possível, em cada um dos instrumentos disponibilizados.
Há um pormenor que merece ser sublinhado: este é um parque sem limite de idade. Estamos habituados a parques infantis com placas a dizer até que idade se pode brincar e no PIM, ninguém é velho demais nem novo demais para tocar. Uma criança de três anos e um idoso de oitenta partilham o mesmo xilofone, e é aí que a música cumpre o seu papel mais bonito, que é o de juntar gerações.
Vale a pena olhar também para a forma como o parque nasceu, dado que a ideia do músico, compositor e professor Tiago Simães esperou 14 anos até encontrar, na Capital Verde Europeia, quem a levasse a sério. Foi uma proposta de e para a comunidade, não um projeto vindo de cima, e isso mostra a importância de haver portas abertas à participação dos cidadãos. Ao Tiago, meu amigo, deixo aqui os meus parabéns, por não ter desistido de um sonho com 14 anos e por o ter oferecido à cidade.
Não é por acaso que o PIM é, ao mesmo tempo, um projeto de música e de ambiente. As 2750 novas plantas e o palco feito de pneus reciclados lembram que a natureza não é apenas cenário: faz parte da composição. Num tempo de ecrãs e auscultadores, em que cada um ouve a sua própria banda sonora, este parque convida-nos a partilhar o mesmo ar e o mesmo som.
Fica, ainda assim, uma pergunta para o futuro, pois um parque destes vive do uso, mas também do cuidado, dado que os instrumentos ao ar livre precisam de manutenção e de programação que os mantenha vivos para lá da novidade. Que o PIM não se torne apenas mobiliário urbano bonito, mas um lugar com vida, com aulas abertas, concertos improvisados e escolas a passar por lá.
O concelho de Guimarães já foi Capital Europeia da Cultura e é, este ano, Capital Verde. O PIM junta as duas coisas num gesto simples, que é o de pôr a música ao alcance da mão. Cabe-nos agora aceitar o convite. Basta chegar, escolher um som e tocar.