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Quando foi a última vez?

Ana Sofia Freitas
Opinião \ sexta-feira, maio 29, 2026
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A maior parte das despedidas não acontece com aviso. Um dia, sem sabermos, fazemos algo pela última vez, e só muito depois percebemos isso.

A verdade é que quase nenhuma despedida importante acontece com aviso prévio. Não há música dramática, abraços demorados ou frases cuidadosamente escolhidas. A maior parte delas acontece num dia completamente normal, enquanto estamos distraídos a viver.

Ninguém nos diz: “esta é a última vez”.

A última vez que brincámos na rua até as luzes dos postes acenderem.

A última viagem no banco de trás do carro dos nossos pais sem pensar no tempo.

A última vez que um avô nos pegou na mão para atravessar a estrada.

A última vez que entrámos numa casa que hoje já só existe na memória.

E talvez seja isso que torna tudo mais difícil.

Se soubéssemos, provavelmente demorávamo-nos mais um pouco. Ficávamos mais cinco minutos. Abraçávamos com mais força. Prestávamos mais atenção aos detalhes pequenos: ao cheiro da comida na cozinha, ao ranger da porta, à gargalhada de alguém que já não ouvimos há anos.

Mas a vida não funciona assim. A vida acontece depressa demais para percebermos quando um capítulo está a terminar.

Há amizades que acabam numa conversa banal. Lugares onde estivemos centenas de vezes e onde, de repente, nunca mais voltamos. Há hábitos que desaparecem silenciosamente da nossa rotina até um dia percebermos que já não existem.

E o mais estranho é que só muito tempo depois reconhecemos essas despedidas.

Às vezes acontece num cheiro. Noutras vezes numa música antiga ou numa fotografia esquecida no fundo do telemóvel. Pequenos gatilhos que abrem portas para versões nossas que já não existem.

Crescer talvez seja isto: colecionar últimas vezes sem dar por elas.

A última vez que fomos crianças.

A última vez que precisámos dos nossos pais para quase tudo.

A última vez que acreditámos que as pessoas ficavam para sempre.

E, no meio disso tudo, vamos aprendendo uma verdade silenciosa: quase nunca sabemos que estamos a viver um momento importante enquanto ele acontece.

Só mais tarde percebemos que aquilo que parecia apenas mais um dia… era afinal uma despedida.