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Os Reis como património educativo: tradição, condições e igualdade

João Ribeiro
Opinião \ quinta-feira, janeiro 29, 2026
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Porque não pensar num verdadeiro Encontro Concelhio dos Reis, capaz de reunir freguesias, escolas, associações e grupos culturais, num espaço com condições?

No início de cada ano, quando ainda se fazem balanços e se traçam intenções, aproxima-se também uma tradição antiga que resiste ao tempo, nomeadamente, o cantar dos Reis. Entre os primeiros dias de janeiro e o dia 6, muitas comunidades voltam a cantar, a percorrer as ruas e as casas de várias localidades e a reunirem as pessoas em torno da música e da palavra. Este momento recorda-nos que a educação começa, muitas vezes, fora do manual escolar e antes de qualquer explicação formal.

Cantar os Reis não é apenas para cumprir um ritual do calendário, mas sim uma forma de participar num saber coletivo que se transmite pela escuta, pela repetição e pela partilha. Trata-se de um património imaterial que se aprende fazendo, cantando em grupo e ouvindo os mais velhos. Não é folclore encenado pois é uma prática viva, comunitária e profundamente formativa.

Enquanto professor de música, é-me impossível não reconhecer no cantar dos Reis, uma das formas mais completas e naturais de iniciação musical. No canto coletivo estão presentes aprendizagens essenciais, desde a afinação, sentido rítmico, memória musical, escuta e imitação e como consequência, aprende-se música sem dar por isso, porque ela  faz parte da experiência.

Importa ainda distinguir duas práticas muitas vezes confundidas. Cantar os Reis está tradicionalmente associado ao dia 6 de janeiro e à celebração da Epifania, no entanto, as Janeiras estendem-se ao longo do mês de janeiro e assumem um carácter mais comunitário, marcado pelos votos de um bom ano e pela partilha entre vizinhos e esta distinção ajuda-nos a compreender a riqueza das tradições que atravessam o início do ano.

Este ano, a chuva trouxe-nos uma dificuldade, pois o encontro dos Jardins de Infância, no evento “Vamos Cantar as Reisadas”, que habitualmente decorre no Largo da Oliveira, realizou-se nos claustros do edifício da Câmara Municipal. O espaço era pequeno para tanta gente, mas teve um encanto diferente, pois era mais recolhido, mais protegido e com um ambiente intimista que valorizou a tradição.

Ainda assim, este episódio reforça uma questão essencial que já tenho vindo a questionar, pois um evento desta dimensão, com crianças pequenas e escolas de diferentes territórios, precisa de condições garantidas, nomeadamente conforto, logística e segurança, independentemente do frio ou da chuva. Um espaço como o Pavilhão Multiusos permitiria essa estabilidade e daria ao encontro a dignidade que ele merece.

Mais do que o local, importa refletir sobre a igualdade de oportunidades. No próprio dia, em conversa com uma educadora da escola da minha terra, senti a tristeza de quem queria levar as crianças, mas não conseguiu. Por ser uma freguesia no limite do concelho, não tiveram essa oportunidade. Quando uns participam e outros ficam de fora, não estamos apenas perante um problema logístico, estamos perante um sinal de desigualdade cultural que não deve ser normalizado.

Felizmente, há também mudanças positivas, pois no Ano Novo que começa de 2026, a Autarquia reforçou a celebração dos Reis com uma programação mais aberta e em rede, envolvendo nove grupos folclóricos e etnográficos que levaram cantares de Reis e Janeiras ao espaço público. Esta colaboração merece ser saudada, dado que devolve protagonismo às associações e reforça identidade e comunidade. A própria programação incluiu ainda um concerto de encerramento, “No Natal dos Reis” (ADIAFA), no Teatro Jordão, valorizando também a dimensão artística e simbólica deste tempo cultural.

Gostaria de reconhecer que, em muitas freguesias, tem acontecido trabalho meritório e consistente, pois os grupos locais, as associações, as instituições e comunidades continuam a manter esta tradição viva, com ensaios, visitas, cantares e encontros que não aparecem sempre no destaque mediático, mas fazem a diferença no território. São estas dinâmicas de proximidade que garantem continuidade e pertença.

Talvez por isso faça sentido lançar uma proposta simples: porque não pensar num verdadeiro Encontro Concelhio dos Reis, capaz de reunir freguesias, escolas, associações e grupos culturais, num espaço com condições, dando visibilidade ao que de melhor se faz em todo o concelho? Um momento agregador, mais justo e mais representativo, onde todos possam participar e onde a tradição se afirme como património educativo comum.

Valorizar os Reis como património educativo não é nostalgia. É reconhecer que educar é também transmitir pertença, cultura e futuro.

 

Doutor João Ribeiro
Professor de Educação Musical | Investigador no CIEC – UMinho