O sabor das férias
As melhores memórias são, muitas vezes, as de infância. Não porque tenham sido as mais luxuosas ou aquelas que exigiram grandes planos, mas porque foram vividas com uma capacidade que só uma criança parece ter: a de transformar o pouco em tudo.
As minhas férias de agosto eram assim.
Começavam nos quilómetros feitos de autocarro, nas horas que pareciam não ter fim e nas malas que pesavam mais a cada paragem. Na altura, talvez não percebesse o esforço que era chegar até lá. Sabia apenas que, no fim daquela viagem, estava o mar.
E isso bastava.
Bastava chegar à praia, sentir a areia quente nos pés e mergulhar. Podíamos chegar cansados, depois de horas de viagem e de carregar malas, mas um mergulho no mar fazia milagres. De repente, o cansaço desaparecia e só importava ficar mais um pouco dentro de água.
Foi assim que aprendi a gostar do mar.
E da areia, mesmo quando ficava agarrada a tudo. À toalha, aos pés, às mãos e, inevitavelmente, às bolas de Berlim.
Nenhuma voltou a saber exatamente ao mesmo. Podia haver vento, podia haver areia colada ao açúcar, mas não interessava. Havia qualquer coisa naquele momento que fazia tudo saber melhor. Talvez fosse o mar ali ao lado. Talvez fosse o sol. Ou talvez fosse simplesmente a idade em que uma bola de Berlim comida na praia parecia uma das melhores coisas do mundo.
E havia o gelado de pistácio.
Ainda hoje não sei explicar porquê, mas aquele gelado tinha outro sabor. Talvez porque naquela altura não havia pressa. Não havia notificações, horários ou a sensação de que o dia estava a fugir. Havia apenas uma criança com um gelado na mão e a certeza de que as férias ainda iam durar muito.
É curioso pensar que, quando somos crianças, acreditamos que o tempo é infinito.
Agosto parecia enorme. Havia tempo para ir à praia, voltar, tomar banho, jantar, sair outra vez e ainda sentir que o dia tinha espaço para mais qualquer coisa.
Hoje olho para as fotografias dessa época e vejo uma menina que não fazia ideia de que estava a guardar memórias para o futuro.
Vejo o mar, as pessoas, os dias de sol e pequenos detalhes que, na altura, pareciam insignificantes. Hoje percebo que algumas coisas nunca desaparecem verdadeiramente. Ficam guardadas numa fotografia, num cheiro, num sabor ou simplesmente naquela sensação de voltar, por breves segundos, a um tempo que já não existe.
Os anos passaram. As férias mudaram. A infância ficou para trás.
É verdade que aqueles dias não voltam. Mas talvez não precisem de voltar.
Porque há férias que acabam quando regressamos a casa e outras que continuam connosco durante toda a vida.
As minhas ficaram no sabor de uma bola de Berlim com areia, num gelado de pistácio, no barulho das ondas e naquela sensação de que um mergulho no mar podia resolver qualquer cansaço.
E talvez seja isso que torna certas memórias tão especiais: não precisamos de voltar a vivê-las para saber que, durante algum tempo, fomos bastante felizes.