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O que não se vê nas notícias

Ana Sofia Freitas
Opinião \ quinta-feira, janeiro 08, 2026
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Enquanto as notícias falam de crises e números, há gestos anónimos que sustentam o mundo em silêncio e nunca chegam às manchetes.

As notícias falam-nos de números, de decisões políticas, de crises que atravessam fronteiras. Mostram incêndios, guerras e estatísticas. Informam, alertam e muitas vezes assustam. Mas existem histórias que nunca chegam às manchetes. Não porque sejam menos importantes, mas porque acontecem longe dos holofotes, todos os dias, em silêncio.

Não vemos nas notícias o voluntário que acorda mais cedo para preparar refeições para quem já perdeu quase tudo. Não há câmaras quando ele estende a mão, quando chama alguém pelo nome, quando escuta sem pressa histórias que pesam mais do que o cansaço. O seu gesto não é extraordinário, é apenas humano, e talvez por isso passe despercebido.

Também raramente se fala da professora que compra material escolar com o seu próprio dinheiro. Que leva livros extra, que inventa atividades quando faltam recursos, que percebe, no olhar de cada criança, que ali falta mais do que lápis e cadernos. Uma professora que não aparece nas estatísticas do sucesso educativo, mas é muitas vezes a razão pela qual alguém não desiste.

Não vemos o vizinho que nunca falha. Aquele que leva o lixo da senhora do terceiro andar, que pergunta se está tudo bem, que repara quando uma luz está há muito tempo ligada. Não faz discursos sobre comunidade, mas constrói-a com pequenos gestos diários.

Estas histórias não geram cliques, não abrem telejornais e não alimentam debates. No entanto, são elas que sustentam o mundo quando as grandes estruturas falham. São expressões simples de ética vivida no quotidiano, onde a responsabilidade não é imposta, mas escolhida.

Vivemos tempos em que é fácil apontar o que está errado e esperar que “alguém” resolva. Mas o que não se vê nas notícias lembra-nos que esse alguém somos nós, nas decisões pequenas, quase invisíveis, que tomamos todos os dias. Ser ético não é apenas ter opinião. É saber agir. Ser responsável não é apenas preocupar-se. É saber cuidar.

Talvez precisemos de aprender a olhar para além das manchetes. Porque, enquanto o mundo parece desmoronar-se nas notícias da noite, há pessoas anónimas que, sem aplausos nem reconhecimento, continuam a segurar as pontas do que ainda funciona.

E isso, mesmo sem título em letras grandes, é o que verdadeiramente importa.