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O homem do guarda-chuva vermelho

Ana Sofia Freitas
Opinião \ quinta-feira, outubro 15, 2026
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Todas as tardes, um homem atravessava a praça com um guarda-chuva vermelho, mesmo sem chuva. Para uma menina, era um mistério. Até descobrir a história de amor e saudade que ele guardava.

Todas as tardes, pouco depois das cinco, um homem atravessava a praça com um guarda-chuva vermelho aberto sobre a cabeça.

Fizesse sol ou estivesse nublado, o guarda-chuva ia sempre com ele. Caminhava devagar e parava junto à fonte, como se cumprisse uma tarefa que ninguém mais conhecia.

A rotina tornou-se um mistério para a menina que costumava brincar naquela praça com a avó.

— Porque é que aquele senhor anda com um guarda-chuva se não está a chover?

A avó encolheu os ombros. Também não sabia.

A menina, porém, não precisava de respostas. Inventava-as. Talvez o homem tivesse medo da chuva. Talvez fosse um detetive disfarçado. Ou talvez estivesse à espera de alguém muito importante, que só apareceria se ele nunca faltasse àquele encontro.

Nos dias seguintes, observou-o. Reparou que olhava para a entrada da praça quando alguém se aproximava e que tocava na pega do guarda-chuva com cuidado antes de partir.

Na sua imaginação, o homem esperava por um grande amor que prometera voltar. Talvez uma viagem os tivesse separado. As histórias mudavam, mas ela tinha a certeza de que aquele homem esperava por alguém.

Numa tarde de outubro, a menina criou coragem e aproximou-se dele.

— Está à espera de alguém?

O homem olhou para ela, surpreendido. Depois, sorriu com uma tristeza tranquila.

— Estou a lembrar-me de alguém.

Ele contou-lhe que, muitos anos antes, a filha partira para viver noutro país. Naquele mesmo lugar, junto à fonte, ela o abraçara antes de entrar no carro que a levaria para longe. Tinha-lhe oferecido o guarda-chuva vermelho, brincando que assim ele nunca se esqueceria dela, nem nos dias de sol.

— Ela diz que vem no Natal — acrescentou. — Mas eu volto cá muitas vezes, mesmo quando ainda falta tanto.

A menina olhou para o guarda-chuva. Pela primeira vez, não lhe pareceu estranho que estivesse aberto sob um céu limpo.

O homem despediu-se e afastou-se. Junto à fonte, a menina percebeu que há esperas que não se medem pelas horas, mas pela falta que alguém nos faz.

Na tarde seguinte, quando voltou à praça, o homem não estava lá. A menina olhou para a entrada, para o banco e para a fonte. Por um instante, imaginou que talvez a filha tivesse finalmente regressado.

Mas o lugar continuava vazio.

Foi então que compreendeu que aquele guarda-chuva nunca servira apenas para proteger alguém da chuva. Era uma forma de guardar um abraço, de levar consigo uma presença e de manter perto quem a distância tinha levado para longe.

Há pessoas que esperam por regressos. Outras aprendem a viver com a saudade. E há pequenos gestos que, vistos de fora, parecem não fazer sentido, mas que, para quem os repete, são uma maneira de continuar a amar.

Naquela praça, uma menina deixou de inventar histórias sobre um desconhecido. Sem se aperceber, tinha aprendido que, por detrás de cada gesto, pode existir uma história que ainda não conhecemos.