O homem do guarda-chuva vermelho
Todas as tardes, pouco depois das cinco, um homem atravessava a praça com um guarda-chuva vermelho aberto sobre a cabeça.
Fizesse sol ou estivesse nublado, o guarda-chuva ia sempre com ele. Caminhava devagar e parava junto à fonte, como se cumprisse uma tarefa que ninguém mais conhecia.
A rotina tornou-se um mistério para a menina que costumava brincar naquela praça com a avó.
— Porque é que aquele senhor anda com um guarda-chuva se não está a chover?
A avó encolheu os ombros. Também não sabia.
A menina, porém, não precisava de respostas. Inventava-as. Talvez o homem tivesse medo da chuva. Talvez fosse um detetive disfarçado. Ou talvez estivesse à espera de alguém muito importante, que só apareceria se ele nunca faltasse àquele encontro.
Nos dias seguintes, observou-o. Reparou que olhava para a entrada da praça quando alguém se aproximava e que tocava na pega do guarda-chuva com cuidado antes de partir.
Na sua imaginação, o homem esperava por um grande amor que prometera voltar. Talvez uma viagem os tivesse separado. As histórias mudavam, mas ela tinha a certeza de que aquele homem esperava por alguém.
Numa tarde de outubro, a menina criou coragem e aproximou-se dele.
— Está à espera de alguém?
O homem olhou para ela, surpreendido. Depois, sorriu com uma tristeza tranquila.
— Estou a lembrar-me de alguém.
Ele contou-lhe que, muitos anos antes, a filha partira para viver noutro país. Naquele mesmo lugar, junto à fonte, ela o abraçara antes de entrar no carro que a levaria para longe. Tinha-lhe oferecido o guarda-chuva vermelho, brincando que assim ele nunca se esqueceria dela, nem nos dias de sol.
— Ela diz que vem no Natal — acrescentou. — Mas eu volto cá muitas vezes, mesmo quando ainda falta tanto.
A menina olhou para o guarda-chuva. Pela primeira vez, não lhe pareceu estranho que estivesse aberto sob um céu limpo.
O homem despediu-se e afastou-se. Junto à fonte, a menina percebeu que há esperas que não se medem pelas horas, mas pela falta que alguém nos faz.
Na tarde seguinte, quando voltou à praça, o homem não estava lá. A menina olhou para a entrada, para o banco e para a fonte. Por um instante, imaginou que talvez a filha tivesse finalmente regressado.
Mas o lugar continuava vazio.
Foi então que compreendeu que aquele guarda-chuva nunca servira apenas para proteger alguém da chuva. Era uma forma de guardar um abraço, de levar consigo uma presença e de manter perto quem a distância tinha levado para longe.
Há pessoas que esperam por regressos. Outras aprendem a viver com a saudade. E há pequenos gestos que, vistos de fora, parecem não fazer sentido, mas que, para quem os repete, são uma maneira de continuar a amar.
Naquela praça, uma menina deixou de inventar histórias sobre um desconhecido. Sem se aperceber, tinha aprendido que, por detrás de cada gesto, pode existir uma história que ainda não conhecemos.