No meio da Estação
Março acorda com sol e adormece com chuva. Sai de casa de manhã com casaco aberto e regressa ao fim da tarde a correr para se abrigar. Não se decide. Nunca se decidiu.
Há dias em que parece primavera. A luz entra mais cedo pela janela, o ar cheira a qualquer coisa nova, e quase acreditamos que o inverno já ficou para trás. Guardamos os cachecóis com entusiasmo imprudente e prometemos a nós mesmos que agora é que vai ser: novos planos, novas rotinas, novas versões de quem somos.
Mas Março tem memória curta. Ou talvez longa demais. No dia seguinte, acorda cinzento, húmido, com vento nos cantos da rua. Obriga-nos a recuar. A vestir outra vez o casaco pesado. A lembrar que as mudanças nunca acontecem de uma vez só.
E talvez seja por isso que gosto dele.
Há fases da vida que são assim: nem inverno, nem primavera. Nem totalmente perdidos, nem totalmente encontrados. Acordamos cheios de certezas e, ao fim do dia, duvidamos de tudo. Queremos mudar de caminho, mas temos medo de largar o que conhecemos. Sentimo-nos fortes numa semana e frágeis na seguinte.
Também nós não nos decidimos.
Há quem diga que Março é instável. Eu prefiro pensar que é honesto. Não finge que a transição é simples. Não nos oferece flores sem antes testar o frio. Não promete sol permanente. Ensina-nos que crescer é um processo irregular, feito de avanços e recuos, de dias claros e outros nublados.
Talvez a vida não precise de decisões definitivas, mas de coragem para atravessar meses como este, onde nada é fixo e tudo está a caminho.
Março não se decide. E ainda bem. Porque é nessa indecisão que aprendemos que mudar não é um instante. É um intervalo.
E talvez todos nós estejamos, secretamente, a viver um Março por dentro.