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Entre o que celebrámos e o que ainda falta fazer

João Ribeiro
Opinião \ quinta-feira, janeiro 01, 2026
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Começa a ganhar força a ideia do trabalho em rede, da articulação entre a educação e a cultura, da valorização do associativismo local como parceiro estratégico e não apenas como executor ocasional.

O final de um ano é sempre um tempo propício ao balanço. Olhamos para trás, recordamos o que vivemos e interrogamo-nos sobre o que ficou por fazer. No campo da educação e da cultura, essa reflexão é ainda mais necessária, porque nem tudo o que se celebra deixa marcas duradouras.

Ao longo deste ano, Guimarães voltou a afirmar-se como um concelho culturalmente ativo. Houve festas, tradições vividas nas freguesias, eventos no centro da cidade e discursos sobre identidade e património. Tudo isso é importante e merece reconhecimento, mas importa ir além da agenda e perguntar: que impacto real teve tudo isto na vida das pessoas, das escolas e das comunidades?

Uma evidência que o ano voltou a confirmar, é que a cultura continua viva, sobretudo, graças às pessoas, pois são as associações, os grupos locais, as bandas filarmónicas, os ranchos folclóricos, as comissões de festas e os voluntários que mantêm práticas culturais regulares e significativas. Sem este trabalho persistente, muitas freguesias viveriam um silêncio cultural difícil de aceitar.

Confirmou-se também que o acesso à cultura e à educação artística continua demasiado dependente do território, pois existem zonas do concelho com oferta regular e oportunidades diversificadas, mas infelizmente noutras zonas, o contacto com a música e as artes resume-se a momentos pontuais. Esta desigualdade não é apenas cultural, é educativa e social.

No contexto escolar, o ano que termina voltou a evidenciar a fragilidade da educação artística. Apesar de reconhecida nos documentos orientadores, continua frequentemente relegada para segundo plano no quotidiano das escolas. Falta tempo, faltam recursos, falta formação específica e, muitas vezes, falta uma visão integrada que reconheça a música e as artes como parte essencial da formação das crianças.

Ainda assim, seria injusto encerrar o ano apenas com um olhar crítico dado que também existiram sinais positivos. Começa a ganhar força a ideia do trabalho em rede, da articulação entre a educação e a cultura, da valorização do associativismo local como parceiro estratégico e não apenas como executor ocasional. Surgiram debates e propostas que apontam para modelos mais estruturados, mais justos e mais próximos das comunidades.

O desafio é não deixar que essas intenções se percam com a mudança do calendário. O que não pode continuar é a lógica do improviso, da exceção e da dependência exclusiva da boa vontade de alguns. A cultura não pode viver apenas de eventos, nem a educação artística pode continuar invisível no dia a dia escolar.

Entrar num novo ano é mais do que virar a página. É assumir que celebrar é importante, mas cuidar do que fica é essencial. Sendo este o início de um novo ano, desejo a todos os leitores um 2026 cheio de coisas boas, mas também de escolhas conscientes, de projetos com continuidade e de uma relação cada vez mais próxima entre educação, cultura e comunidade.

 

Doutor João Ribeiro
Professor de Educação Musical
Investigador colaborador no Centro de Investigação em Estudos da Criança (CIEC)
Instituto da Educação da Universidade do Minho