17 setembro 2026 \ Caldas das Taipas
tempo
18 ºC
pesquisa

E se perguntássemos outra vez?

Ana Sofia Freitas
Opinião \ quinta-feira, setembro 17, 2026
© Direitos reservados
Há perguntas que fazemos por hábito e respostas que aceitamos sem pensar. Mas e se, por vezes, fosse preciso parar, olhar melhor e perguntar outra vez?

— Está tudo bem?

— Está.

Foi uma conversa de poucos segundos. Daquelas que temos todos os dias sem pensar muito nelas. Uma pergunta feita por hábito, uma resposta automática e, logo depois, cada um seguiu o seu caminho.

Ela sorriu. Continuou o dia, respondeu a mensagens, cumprimentou quem encontrou e riu-se de uma piada. Para quem a via de fora, estava tudo normal.

Mas nem sempre aquilo que parece normal é, de facto, tranquilo.

Estamos tão habituados a perguntar “estás bem?” que, muitas vezes, nem esperamos pela resposta. E talvez seja aí que perdemos algumas oportunidades.

Porque há pessoas que aprenderam a responder “estou bem” mesmo quando não estão. Não porque queiram esconder alguma coisa, mas porque nem sempre sabem explicar o que sentem, têm medo de incomodar ou acham que os seus problemas não são importantes.

Há quem sorria enquanto carrega coisas que ninguém imagina.

Há quem continue a cumprir todos os seus compromissos enquanto, por dentro, esteja apenas a tentar encontrar forças para chegar ao fim do dia.

E há quem precise de ajuda, mas não saiba como pedi-la.

Talvez por isso, às vezes, seja importante perguntar outra vez.

Não de forma insistente, mas com tempo e atenção. Com disponibilidade para ouvir o que possa existir depois do “sim”.

— Estás bem?

— Estou.

— Mas estás mesmo?

É uma pergunta pequena. Não resolve problemas nem apaga dores, mas pode abrir uma porta. E, quando essa porta se abre, talvez o mais importante seja simplesmente ficar.

Vivemos demasiado depressa. Temos pressa para responder e resolver, e podemos deixar passar sinais que estavam mesmo à nossa frente.

Um amigo que deixou de aparecer.

Uma mensagem que deixou de chegar.

Alguém que já não ri como antes.

Alguém que começa a dizer “não vale a pena” mais vezes.

Nem sempre estes sinais significam uma crise. Mas podem ser motivos suficientes para nos aproximarmos e perguntarmos.

Sem julgamentos. Sem minimizar. Sem transformar a dor do outro numa competição.

Podemos conhecer alguém há anos e, ainda assim, desconhecer algumas das suas batalhas mais silenciosas.

É por isso que setembro nos convida a olhar um pouco mais para os outros. O Setembro Amarelo dedica-se à sensibilização e à prevenção do suicídio, lembrando-nos da importância de falar, ouvir e procurar ajuda.

Mas esta atenção não devia existir apenas durante um mês, porque as pessoas não deixam de precisar umas das outras quando o calendário muda.

Talvez não consigamos resolver tudo com uma simples pergunta, nem saibamos o que dizer. E está tudo bem. Não precisamos de ter respostas para tudo.

Às vezes, podemos apenas ouvir, mandar uma mensagem, sentar-nos ao lado de alguém e dizer: “Estou aqui.”

E, sobretudo, podemos perguntar outra vez.

Porque talvez aquele “estou bem” tenha sido apenas a resposta que alguém conseguiu dar naquele momento.

E talvez, se tivermos tempo para ouvir a segunda resposta, descubramos aquilo que a primeira não conseguiu dizer.