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E se as árvores pudessem escolher?

Ana Sofia Freitas
Opinião \ quarta-feira, julho 29, 2026
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E se as árvores pudessem escolher o seu destino? Uma reflexão sobre responsabilidade, consciência e o impacto das decisões que tomamos todos os dias.

Há uma pergunta que me tem acompanhado nos últimos tempos: e se as árvores pudessem escolher?

À primeira vista, parece uma ideia absurda. As árvores não falam, não escolhem o lugar onde permanecem nem participam nas decisões que transformam o espaço onde cresceram. Limitam-se a permanecer onde sempre estiveram, silenciosas, enquanto o mundo à sua volta muda a um ritmo cada vez mais acelerado.

Mas talvez seja precisamente esse silêncio que nos devesse inquietar.

Vivemos numa sociedade onde quase tudo é decidido em função do imediato. Do que é mais rápido. Do que é mais rentável. Do que resolve o problema de hoje, mesmo que crie outro amanhã. Construímos, alargamos, abatemos, substituímos. E, no meio de tantas decisões, raramente paramos para pensar naquilo que fica para trás.

As árvores são apenas um exemplo.

Poderiam ser os rios, os campos, os animais ou até as gerações que ainda nem nasceram.

Todos eles têm algo em comum: vivem as consequências das decisões que outros tomam, sem nunca terem oportunidade de fazer ouvir a sua voz.

Talvez por isso nos seja tão difícil perceber o verdadeiro peso das nossas escolhas. Estamos habituados a medir aquilo que ganhamos no imediato, mas esquecemo-nos, tantas vezes, de pensar no que poderá faltar daqui a dez, vinte ou cinquenta anos. Nem todas as consequências chegam depressa. Algumas crescem em silêncio, exatamente como crescem as árvores.

Talvez a responsabilidade comece exatamente aí.

Na capacidade de pensar para além de nós próprios.

Porque decidir não é apenas escolher aquilo que nos beneficia. É também pensar em quem será afetado pelas nossas decisões, mesmo quando não consegue pedir, reclamar ou defender aquilo que é seu.

A ética não se mede apenas pelas leis que cumprimos ou pelas palavras que dizemos. Mede-se, sobretudo, pela forma como tratamos quem depende exclusivamente da nossa consciência para continuar a existir.

Talvez nunca venhamos a saber que escolhas faria uma árvore.

Mas sabemos perfeitamente quais são as nossas.

Escolhemos quando protegemos ou destruímos. Quando pensamos apenas no presente ou também nas gerações que ainda hão de chegar. Quando percebemos que nem tudo o que tem valor consegue fazer-se ouvir.

Afinal, a responsabilidade não começa quando alguém nos pede explicações. Começa quando compreendemos que cada decisão deixa uma marca na paisagem, nas pessoas e no futuro que um dia deixaremos a quem vier depois de nós.

Porque há decisões que demoram apenas alguns minutos a tomar… e décadas a reparar.